Presidenciais

Voto antecipado em Lisboa: mais gente que o esperado, mas "medidas foram cumpridas"

Voto antecipado em Lisboa: mais gente que o esperado, mas "medidas foram cumpridas"

A primeira sensação que se tem ao chegar à reitoria da Universidade de Lisboa é de apreensão: quem quis evitar aglomerações deparou-se, afinal, com filas e ajuntamentos para exercer o direito de voto. No entanto, o sentimento geral é de que o processo está a decorrer com normalidade.

Pouco depois das 10 horas deste domingo, as filas já dominavam a paisagem da Cidade Universitária. A zona, que habitualmente é local de passagem dos estudantes das faculdades de Direito e de Letras da Universidade de Lisboa, recebeu incomparavelmente mais gente do que num dia normal de aulas. Quem queria evitar confusões depressa percebeu que não iria ser o caso.

No entanto, a generalidade das pessoas com quem o JN falou não se mostrou arrependida por ter antecipado o voto. A exceção foi um homem de meia idade que apenas disse, em voz bem alta: "Isto está muito bem organizado, sim senhor! Não-sei-quantas mil pessoas no mesmo sítio...".

Tiago, de 53 anos, também não esperava tanta gente, mas aprova a logística do processo. Recorreu ao voto antecipado porque achou que no dia 24 "ia haver uma enchente", ao passo que, neste domingo, as coisas seriam mais calmas. Contudo, esclarece: "se voltasse atrás, faria o mesmo".

Tiago é de Lisboa e, por isso, teve de votar numa das zonas mais congestionadas: a Reitoria e a Faculdade de Letras recebem unicamente residentes na capital, que se espalham ainda para a Faculdade de Direito - onde votam, também, os habitantes da maioria dos restantes distritos. A Cantina Velha fica reservada para as Regiões Autónomas, Guarda, Leiria, Setúbal e Faro.

A secção de voto de Tiago estava "cheiinha" e a fila para lá chegar era "gigante", apesar de ter "andado bem". Embora tenha ficado satisfeito com a organização, este não quer repetir o processo e deixa, por isso, um desejo: "que só haja primeira volta e isto fique já resolvido".

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Abdicar de ir a casa para não pôr a família "em risco"

Maria, de 24 anos, ficou surpreendida com a quantidade de gente mas afirma que "a organização está a ser boa, dentro dos possíveis". Oriunda do distrito de Viseu, optou por votar na capital para "não pôr em risco" os pais. "Dava jeito ir a casa, mas...".

Ainda assim, Maria nunca colocou a hipótese de não votar, já que "nós, jovens, temos de lutar pelo país". E qual seria o melhor desfecho destas presidenciais, no entender da viseense? "Que ganhe o melhor, e que não seja o candidato da extrema-direita".

Mariana tem apenas mais um ano do que Maria e recorreu à mesma expressão quando o JN lhe perguntou o motivo de não ter votado em Castelo Branco, de onde é natural: nesta altura, ir a casa seria "pôr em risco a família", respondeu. Além disso, como continua a trabalhar apesar do confinamento, "não era conveniente" fazer duas viagens em tão pouco tempo.

Também Mariana esperava menos gente na Cidade Universitária. Ainda assim, sentiu-se segura: "As medidas estão a ser todas cumpridas. Há distanciamento e, na secção de voto, estava tudo bastante organizado e explícito", relatou.

Quanto ao desfecho das eleições, diz que a grande dúvida é quem ficará imediatamente atrás de Marcelo Rebelo de Sousa. Como tal, deseja "que o candidato de extrema-direita não fique em segundo, nem em terceiro, nem em quarto".

Lábios vermelhos e o medo de ficar em isolamento

Madalena, de 78 anos, foi votar com a irmã. Ambas pertencem a um grupo de risco, mas nem por isso hesitaram na hora de optar pelo voto antecipado. "No Beato, onde voto, há sempre muita gente", explica Madalena. E ali, na Cidade Universitária, também não havia? "Sim, mas nunca nos sentimos em risco, pelo contrário".

Madalena subscreve as restantes opiniões recolhidas pelo JN: "Isto está muito bem organizado, merecem muitos elogios". Tudo a postos, portanto, para cumprir aquilo que, a seu ver, é simultaneamente um desejo e uma certeza: "que o dr. Marcelo Rebelo de Sousa ganhe".

A sair da Faculdade de Direito, e a caminhar no sentido contrário ao de Madalena, estão Raquel e Ricardo. Dois pormenores no casal - ele e ela com 35 anos - captam a atenção de quem passa: cada um transporta um bebé ao colo e ambos usam máscaras às quais acrescentaram dois grandes lábios vermelhos, sinal de solidariedade para com os candidados de Esquerda insultados por André Ventura.

Raquel é do Porto e Ricardo de Braga, mas vivem em Lisboa. Anteciparam o voto porque, "com o número de infetados a subir, pensámos que a probabilidade de termos de ficar em isolamento profilático no dia 24 ia ser muito mais elevada", explicou Raquel.

Ainda assim, continuou, acabaram por se deparar com "mais pessoas do que pensávamos", ainda que a organização seja "de louvar". Mas o voto antecipado podia ser distribuído por mais dias", observou Ricardo.

Os lábios pintados na máscara denunciam as preferências políticas do casal - ou, pelo menos, indicam em quem não votarão. Sem falar em candidatos, Raquel diz qual é, no seu entender, a prioridade nestas presidenciais: "Que as pessoas percebam o poder do voto e da democracia. Só assim mantemos o 25 de Abril vivo".

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