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 "Não me dês moral, dá-me um ideal social"

 "Não me dês moral, dá-me um ideal social"

Não é aquela frase de que o primeiro-ministro António Costa tanto gosta - "À política o que é da política e à Justiça o que é da Justiça"; é um sucedâneo com igual cabimento e muito mais jogo de cintura. No sentido literal: "Ao futebol o que é do futebol e à Cultura o que é da Cultura."A que propósito?

A propósito de João Loureiro e dos 30 minutos épicos que os Ban, banda de boa memória do filho do Major Valentim, proporcionou esta semana à plateia que encheu o backstage do Rivoli (alguma vez foi ao backstage do Rivoli? Tem de ir! Que sala maravilhosa!) para assistir ao mini-concerto daquele "filme sempre pop" que tanto nos fez rodopiar e rir entre o final dos anos 80 e o início dos anos 90.

Foi em 1988 (quantas vidas passaram desde 1988?) que os BAN lançaram o disco "Surrealizar", com aquele hit coruscante "Irreal Social" com um dos refrães mais orelhudos da música portuguesa.

"Dá-me um irreal, um imaginário. Dá-me um irreal.
Dá-me um ideal, um ar ilusório. Dá-me um ideal.
Não me dês moral. Dá-me irreal ideal social popular avançado."

Dá-me um ideal? Ou dá-me um irreal?
A dúvida sobre esta magnífica letra perseguiu-nos, na era pré-Google, durante anos e anos. E foi à boleia de não sabermos bem o que pedia, afinal, João Loureiro (ainda ele não sonhava ser presidente do Boavista ou, bom, enfim, talvez sonhasse quando três anos depois escreveu: "Aventuras quero mais, paraísos eventuais, ironias, ilusões. Aventuras com mais humor.") que tivemos a nossa primeira incursão pelo surrealismo. Já lá vamos.

Antes disso, há que sublinhar que não há a mais pequena ponta de ironia no elogio a este concerto. Foram trinta minutos cronometrados, cinco canções, uma versão sublime da "Irreal Social", uma Ana Deus de voz por onde o tempo não passou (as Três Tristes Tigres têm disco novo a caminho) e uma catedral de coragem erguida a João Loureiro. As mãos tremiam-lhe no início, a voz trepidava, o corpo teimava em não querer mexer-se. Mas aos 56 anos subir ao palco sem saber se se vai ser aplaudido ou vaiado não é para todos.

Aquele momento merece ser repetido em versão alargada. Os Ban são uma banda histórica do Porto e da música portuguesa. Justamente por isso mesmo foram convidados para ilustrar o lançamento do livro "Musonautas - Visões & Avarias", uma obra extraordinária sobre as cinco décadas (1960-2010) de "inquietação musical no Porto". Não é um livro, não é um catálogo, não é um objeto, é um tesouro singularíssimo que tem o dom de deixar-nos com uma maratona de sorrisos parvos na cara.

De surrealizar ao surrealismo

Chegar ao surrealismo nos anos 80 é chegar ao movimento com muitas décadas de atraso. Mas cada um tem a idade que tem. Resta o privilégio de termos chegado a tempo de ver Mário Cesariny (1923 - 2006), Fernando Lemos (1926-2019) ou Cruzeiro Seixas com vida. No caso deles, com tanta vida. Mas é por esse atraso no tempo que custa tanto a notícia de ver desaparecer Fernando Lemos, fotógrafo e poeta, tão lúcido e tão lírico, nos seus 93 anos.

Recentemente, o autor de uma série de fotografias tiradas antes da sua partida para o Brasil, e que figuram na História da Arte como obras maiores da estética surrealista (1949-1952), deu uma entrevista ao semanário "Expresso", que merece ser guardada.

Eis um excerto sobre essa coisa se ser português e sobre a diferença entre o Porto e Lisboa:

"Mais do que português, sou um lisboeta. Lisboa é o lugar de onde se saiu e o Porto é o lugar onde se ficou, por várias razões de ordem industrial, cultural, mas principalmente porque aqui [no Porto] se fixou uma coisa importante que é viver e morar.

Em Lisboa não se mora. Lisboa é um lugar de partida. E, com o tempo, ficou a ser um lugar só de escritórios, quase sem residência. Lisboa estendeu-se em volta. E a gente vê que o Porto é o lugar onde, por excelência, se mora.

A construção, a sua forma física, independentemente do traço da arquitetura, é o lugar que dá a nobreza à residência, o amor de morar, que resolve toda a poética da vida.

A casa é o nosso palco, é o lugar onde a gente dramatiza e representa a nossa vida. Lisboa não tem muito isso, porque toda a gente partiu, toda a gente foi.

Esse mito de ir às descobertas e às conquistas é uma forma meio ilusória, porque o que o português fez foi ir à procura do outro, farto de uma vivência triste, sem futuro, com muita carência, muita falta. Ele saiu para ir à procura do outro."

Nunca é tarde para chegar a Fernando Lemos, esteja onde estiver. Se estiver no Porto, passe pela Fundação Cupertino de Miranda, que tem um acervo notável sobre os surrealistas.

Também nunca é tarde para ver ou rever ou deixarmo-nos envolver outra vez e outra pela obra de Wim Wenders. Começa esta quinta-feira, no Teatro do Campo Alegre, no Porto, um ciclo com 15 filmes. No mesmo dia, hoje, e no mesmo lugar, as Quintas de Leitura celebram os seus 18 anos.

Não há razões para que não tenha um bom fim de semana.

PS.: Ciclo Wim Wenders - Ao correr do Tempo". De 19 de Dezembro a 8 de Janeiro

Quinta-feira, 19 de Dezembro
18h30, 22h
Nick's Movie - Um Acto de Amor, 1980

Sexta-feira, 20 de dezembro
18h30, 22h
A Angústia do Guarda-redes no Momento do Penalty, 1972

Sábado, 21 de Dezembro
15h30, 18h30, 21h30
As Asas do Desejo, 1987

Domingo, 22 de Dezembro
15h30, 18h30, 21h30
Tão Longe, Tão Perto, 1993

Segunda-feira, 23 de Dezembro
18h30, 22h
Movimento em Falso, 1975

Quinta-feira, 26 de Dezembro
18h30, 22h
Tokyo-Ga, 1985

Sexta-feira, 27 de Dezembro
18h30, 21h30
O Estado das Coisas, 1982

Sábado, 28 de Dezembro
15h30, 18h30, 21h30
Paris, Texas, 1984

Domingo, 29 de Dezembro
15h30, 18h30, 21h30
Lisbon Story - Viagem a Lisboa, 1994

Segunda-feira, 30 de Dezembro
18h30, 22h
Buena Vista Social Club, 1999

Quinta-feira, 2 de Janeiro
18h30, 22h
A Letra Escarlate, 1973

Sexta-feira, 3 de Janeiro
18h30, 22h
Alice nas Cidades, 1974

Sábado, 4 de Janeiro
15h30, 18h30, 21h30
O Amigo Americano, 1977

Domingo, 5 de Janeiro
15h, 18h10, 21h15
Ao Correr do Tempo, 1975

Segunda-feira, 6 de Janeiro
18h30
A Angústia do Guarda-redes no Momento do Penalty, 1972
22h
Movimento em Falso, 1975

Terça-feira, 7 de Janeiro
18h30
Lisbon Story - Viagem a Lisboa, 1994
21h30
Tão Longe, Tão Perto, 1993

Quinta-feira, 8 de Janeiro
18h30
Os Belos Dias de Aranjuez, 2016
22h
Nick's Movie - Um Acto de Amor, 1980

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