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134 milhões ao mar

Nesta quinta-feira 23 de maio, o Reino Unido vai lançar ao mar - literalmente - 134 milhões de euros. Porque vai eleger 78 deputados para o Parlamento Europeu só por ter sido absolutamente inepto na resolução das quezílias internas em torno dos termos do divórcio da União Europeia a tempo de evitar ir a votos. São 78 eurodeputados que, se tudo rolar como previsto, nem vão ter hipótese de aquecer o lugar em Bruxelas/Estrasburgo, mas cuja eleição (e não vai ser bonita) custa os ditos 134 milhões, segundo cálculos feitos com base no custo das europeias de 2014 no Reino de Sua Majestade.

Não vai ser bonita porque, antes de tudo, acontece antes de a primeira-ministra, Theresa May, apresentar à nação o seu derradeiro projeto de acordo para o Brexit. Já se prevê - para não dizer sabe - que vai chumbar, por muito que tenha cedido a exigências da oposição trabalhista (incluindo um malquisto segundo referendo), porque nem estes nem os mais conservadores entre os conservadores perdoam à chefe de Governo a teimosia de "bater no ceguinho", colocando à apreciação dos deputados quatro vezes o mesmo texto. Um texto sem garantias para uns, um texto demasiado brando para outros.

E não vai ser bonita porque se prevê - para não dizer sabe, e aqui porque somos persistentes crentes, como May, de que há salvação na humanidade - que o eurocético urdidor do caótico Brexit e apreciador de cliques de extrema-direita e de personagens recomendáveis como o estratega da campanha de Donald Trump ou o líder da Liga italiana ganha o concurso com mestria. Apontam a Nigel Farage e ao seu novel Partido do Brexit 37% das intenções de um voto a brincar, que atira para o fundo da tabela o partido de May, um dos que tem alimentado, ao longo de décadas, a alternância no Reino Unido.

Não vai ser bonita e não vai servir de nada para ninguém, a não ser para dar lições (a persistentes crentes como nós, até). May já admitiu demitir-se após a votação do acordo, aprazada para 3 de junho. Esperava a aprovação e a saída do país do clube europeu, simultânea com a dela, como um desiderato cumprido. Sonhou-o e prometeu-o para meados de julho, para ir de férias e de reforma política em paz. Mas terá a rejeição e a incerteza do que aí advém até 31 de outubro, dia em que o Brexit tem mesmo de acontecer, porque no dia seguinte toma posse a nova Comissão Europeia. Ou não acontecer. Ou acontecer à bruta. Com uma certeza: o Reino Unido como o conhecemos faleceu.