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A grande restruturação da classe operária

A grande restruturação da classe operária

De que falamos quando falamos de racismo? Não é coisa de moda e a discussão não vai desaparecer: acontece nos palcos, nos relvados.

"Uma mulher negra estraga a estética." Assim argumentava a professora de ballet de Chloé Lopes Gomes, a primeira bailarina de pele escura a integrar o Staatsballett Berlin. Após dois anos daquele tipo de humilhação que não mata mas mói, o caso tornou-se público e a companhia alemã atravessa agora um período de restruturação. O génio saiu da lâmpada e não é crível que o racismo, subliminar ou declarado, regresse para debaixo do tapete: Pierre Webo, treinador adjunto da equipa turca de futebol do Basaksehir, também não esteve para aturar a ignomínia em silêncio e o relvado do jogo com o PSG esvaziou-se. Já Jorge Jesus acha que é uma questão de moda.

Há muito que Taylor Swift se envolveu em restruturações de outra estirpe: bate-se pela posse do material dos seus seis primeiros álbuns, vendidos a uma empresa de capital privado sem seu conhecimento, e em 2020 especializou-se a lançar álbuns sem aviso prévio. Assim foi em julho com "Folklore", assim é com "Evermore", que chega esta sexta-feira 11, já fora de tempo para figurar nas listas dos melhores álbuns do ano.

Restruturando por aí, agora em módulo esperança: o gnration, em Braga, é um de vários espaços culturais que vem anunciando programação consistente para os primeiros meses de 2021. Chame-se-lhe o nono novo normal. Haverá concertos, instalações e filmes, mas primeiro, a 9 de janeiro, retoma-se um dos temas fortes do ano que se fina com a presença do artista angolano Januário Jano no ciclo de conversas e cinema "De que falamos quando falamos de racismo". Uma conversa que decorrerá online. Tudo modas.

Se a vontade de sair não abundar, o centenário do nascimento da escritora Clarice Lispector é um pretexto mais do que válido para mergulhar numa obra singular, nos antípodas da efervescência que nos habituámos a associar às criações brasileiras. E há Harold Budd, que partiu no início da semana, mais uma vítima da covid-19: a sua música pouco mobilada e planante merece ser revisitada (ou descoberta). Sem necessidade de restruturação.

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