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"A vida humana é inviolável"

"A vida humana é inviolável"

Em pleno século XXI chegam-nos notícias que julgávamos do século passado. Ou de países em vias de desenvolvimento. Esta semana chegaram-nos notícias com esse perfil. Mas eram deste século. E do nosso país. Cuja Constituição, no seu 24.º artigo, consagra o direito à vida: "A vida humana é inviolável".

Mas a vida de Rodrigo, hoje com 12 dias, foi violada. Rodrigo nasceu no Centro Hospitalar de Setúbal sem nariz, olhos e parte do crânio. Malformações nunca detetadas durante a gravidez. Não sou médica. Mas sou mãe. E há termos médicos que nos ficam gravados. Translucência da nuca e ossos próprios do nariz são os primeiros deles. Dizem-nos, no primeiro trimestre de gestação, se podemos respirar de alívio ou se teremos de tomar a decisão mais difícil das nossas vidas. Não há exames que detetem a 100% anomalias. Mas andam perto disso.

Não sou eu que o digo. São os médicos. Questionado pelo DN se é normal falhar a avaliação do rosto de um bebé, o presidente do Colégio de Especialidade de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, João Bernardes, foi claro: "Não é normal. Uma situação extrema é raríssimo acontecer".

Não sei se o Rodrigo é uma situação extrema. Para mim é o Rodrigo. E o raríssimo aconteceu. Pelas mãos de um médico que, ficamos ao final da tarde desta sexta-feira a saber, conta já com cinco queixas na Ordem de Médicos, a primeira entrada em 2013. O que deixa para trás o nascimento de uma bebé, em 2011, sem queixo e com as pernas ao contrário. O denominador comum é o médico. O processo foi arquivado.

O bastonário Miguel Guimarães anunciou que ele próprio irá apresentar uma queixa contra aquele clínico, a sexta, junto do Conselho Disciplinar da Ordem por potencial negligência. E pedir aos seus pares que analisem a possibilidade de uma suspensão preventiva. Serão os regulamentos. Serão os estatutos. Mas estas águas separadas dentro da Ordem só geram silêncios. Quando serão urgentes respostas. E medidas.

Respostas e medidas que já só servirão para o futuro. Porque a vida do Rodrigo foi violada. E isso ninguém jamais poderá repor. Mas podem repor a confiança, ao punir exemplarmente quem não zelou pelo Rodrigo, confirmando-se falha grave. Ontem. Não daqui a uns anos.