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Abstenção: "Vivemos num país bem atrasado!"

Abstenção: "Vivemos num país bem atrasado!"

Assim que as primeiras projeções sobre as eleições legislativas do passado domingo apontaram para uma abstenção a rondar os definitivos 45,5%, José Pinto disparou: "Vivemos num país bem atrasado!"

José Pinto tem 84 anos. Natural de Lamego, viveu quase sempre em Vila Real. E viveu uma boa parte da vida num tempo sem possibilidade de ter voto em matéria de governação do país. Daí que olhe para o direito que o 25 Abril de 1974 lhe conferiu mais como um dever do que qualquer regalia. Não se estranhe, portanto, este desabafo feito no descanso do sofá, em Vila Real, a olhar para a televisão, antes de o jantar estar na mesa.

"Vivemos num país bem atrasado!", repetiu. Como se, dizendo-o por mais que uma vez, abafasse, aos poucos, aquele misto de incompreensão e de revolta. Não resulta de fácil digestão para quem viveu em tempos de ditadura, a forma como tanta gente desperdiça as conquistas de Abril.

E, sobretudo, para quem como José Pinto gosta de votar religiosamente em todas as eleições. Sempre depois do almoço. Que é para, sem pressas e com o estômago já composto, poder ver o boletim com atenção e fazer a cruz no quadrado da sua opção partidária.

Votar é momento que merece tranquilidade física e espiritual. Instante solene que até lhe exige uma gravata. E depois de ver que quase metade dos eleitores deitaram fora a possibilidade de poder participar na escolha de quem nos representa na Assembleia da República, como já em maio tinha acontecido, em pior percentagem ainda, para as eleições europeias, há de tê-lo pensado outra vez: "Vivemos num país bem atrasado!"

Azia apaziguada, calhou bem não se terem atrasado os bombeiros que, esta terça-feira, foram combater o fogo provocado por três raparigas de 16 anos, numa zona de mato junto à Escola Secundária Lima de Freitas, em Setúbal. O Rogério de Matos conta que a PSP também não se atrasou e chegou a tempo de as apanhar em flagrante delito. No entanto, numa habitação em Almada não houve rapidez que tivesse impedido que um incêndio provocasse a morte de uma idosa que ali vivia.

Não causaria qualquer espanto que José Pinto também tivesse dito que "vivemos num país bem atrasado", quando soube da descarga de substâncias perigosas para o rio Rabaçal, ali para os lados de Mirandela, que matou mais de uma tonelada de peixes. Como a investigação ainda prossegue, o Fernando Pires noticiou esta terça-feira que o Clube de Caça e Pesca de Mirandela decidiu, não vá o diabo tecê-las, proibir a pesca desportiva na sua área de concessão do rio Tua. Os pescadores ficam, portanto, obrigados a abster-se da atividade desportiva que lhes ocupa os tempos livres.

E foi com piada que Albino Reis, capelão do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho, não se absteve de pedir aos fumadores que levem as "beatas" porque já tem muitas na capela. Parece que após a fixação de cartazes com o recado, os viciados passaram a deixar menos maços de tabaco e pontas de cigarro na via pública. Pelo menos, à volta da capela.

Por falar em beatas, a Associação Académica da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro vai promover, a partir das 17 horas desta quarta-feira, uma ação de recolha de beatas de cigarro pelas ruas da cidade de Vila Real. O que dirá José Pinto?