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As quatro da tarde são as novas quatro da manhã

As quatro da tarde são as novas quatro da manhã

"Todos nós vamos morrer. Só isso deveria fazer com que nos amássemos mais uns aos outros. Mas não faz", observou o romancista maldito Charles Bukowski. É o avesso da normalidade. Aparentemente, a morte deixou de comover-nos. E a vida?

Esta quarta-feira morreram 82 pessoas. Anteontem, 62. Na segunda, 63. Esta quinta-feira morreram 78 pessoas. Ao todo, desde março, mais de três mil. Só em Portugal. No mundo, mais de 1,2 milhões de pessoas em nove meses. Só de covid-19. Será possível que a pandemia que entrou a pés juntos na nossa vida nos tenha tornado impermeáveis, fazendo com que nos esgotemos numa irascibilidade crescente para a qual encontramos sempre a mesma desculpa? Os outros.

Em contagem decrescente para o fim de semana mais bizarro da nossa existência recente - as restrições começam às 13h de sábado e prolongam-se até às cinco horas da madrugada de domingo, e assim será também no fim de semana seguinte -, questiona-se o colete de forças que agora veste a liberdade, aponta-se o dedo à comunicação deficiente das autoridades de saúde, duvida-se do Governo que agora vai aumentar o número de municípios na lista negra de 121 para 150, teme-se o trambolhão em curso da economia (cada setor está a perder empregos aos milhares), mas ninguém parece muito interessado em refletir sobre responsabilidade individual. Valerá a pena repetir que sem responsabilidade não há liberdade?

Enquanto andamos todos mais ou menos entretidos com as nossas dores mais ou menos privadas, o setor da cultura, ferozmente afetado por uma inevitável paralisação - neste momento, a quebra é de 80% , o que ajuda a explicar por que razão reclama um apoio idêntico ao da restauração - , desdobra-se para encontrar a saída de emergência - para ele próprio, para não morrer, e para nós, para a nossa sanidade mental.

Visitar museus de manhã não será assim tão insólito, mas assistir a concertos ou a peças de teatro ou de dança à hora do pequeno almoço já é mais excêntrico. Ainda assim, é para aí que caminhamos. As quatro da tarde são, sabe-se lá até quando, as novas quatro da manhã.

No Teatro Municipal do Porto, o imperdível espetáculo da CCN - Ballet de Lorraine, dedicado a Merce Cunningham, passa as 10h45 de sábado. No Theatro Circo, em Braga, o concerto do pianista Tiago Sousa passa para as 11 horas da manhã de sábado. Em Guimarães, os concertos de sábado e domingo da maratona da 29ª edição do Guimarães Jazz passam para as 10h30. São apenas exemplos, a alteração estende-se de Norte a Sul do país.

Muda o horário mas não muda a urgência, a deles (artistas, técnicos, agentes, equipamentos) e a nossa. Pior do que a mudança de horário seria o silêncio. Porque "não há nada que o silêncio não mate", ensinou-nos Dulce Maria Cardoso. Nestes tempos de caminho estreito, seria importante que pudéssemos retribuir a quem não desiste de nós: ir ao teatro, ao cinema, aos concertos, às galerias, às livrarias, seja a que horas for. E oferecer bilhetes como presente do Natal que se aproxima. Um ingresso para um espetáculo representa hoje, mais do que nunca, uma importantíssima contribuição para uma salvação coletiva.

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Sabe quantas pessoas dependem diretamente da cultura em Portugal, mesmo considerando que o país está na cauda da Europa do consumo de atividades culturais? Quase 150 mil, 3% do PIB. Pense nisto.

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