Newsletter Editorial

Beleza e consolação

É natural que o impacto esteja agora mais suavizado, agora que se normalizou a linguagem e o esforço que vários homens e mulheres, muitas vezes pagando o derradeiro preço, para retratarem e denunciarem a miséria humana.

A fotografia, essa arte instantânea de resistência ao efémero, mudou muito com a publicação de "Os americanos", em 1959, a obra revolucionária de Robert Frank, que morreu esta semana. E mesmo que aquelas imagens fabulosas - que exibiram as traseiras de uma América de face brilhante, que era, porém, um "país brutal", para usar as palavras de Frank -, mesmo que, dizia, já não nos choquem como chocaram o público e os críticos da época, é impossível escapar àquela beleza plasmada a preto e branco de contraste visual e semântico.

Era militante e nenhum mal há nisso: iluminar o errado, descrever os abusos, mostrar a miséria para que seja corrigida é um dever dos corajosos, que deve encorajar quem quer ajudar e não pode. Que deve envergonhar quem pode.

Mas a beleza, aquele tipo de beleza que nos dá consolação, a beleza impertinente, fechada na sua gloriosa forma de saber levar-nos para o melhor, milita também pelo resgate das almas. Tem uma força com autoridade própria na mudança do Mundo - e na perceção que temos do que existe à nossa volta. (Sobre beleza e consolação, não perca este documentário)

É por isso que vale sempre a pena tentar ir a um espetáculo, ver um filme, ir a uma exposição ou ler um livro que nos desafie, por mais estranhos e desligados da nossa preferência que estejam. O pior que pode acontecer é confirmar que tínhamos razão. E o melhor... o melhor é sempre melhor.

Perdoe-me, estimado leitor, a preleção. Mas gosto de insistir neste ponto fundamental, ainda mais quando a velocidade dos dias nos vai rompendo a vontade de querermos mais. Não desisto de lhe dizer que vale a pena arriscar outra coisa. Sobretudo quando temos, à nossa disposição, felizmente por todo o país, quem faça esse trabalho por nós, para nosso deleite. Não desista também.

Ite, missa est.