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Branquear a imagem do país em três passos

Branquear a imagem do país em três passos

De vez em quando, lá vem outro comunicado aos jornalistas: chegou a Portugal mais uma mão cheia de refugiados, vindo de países como a Síria, o Iraque ou o Sudão. A disponibilidade do país para os acolher é sem dúvida positiva, mas deixa o resto do icebergue submerso.

Vamos por passos. Esta semana, entrou em Portugal mais um grupo de oito refugiados. Chegaram esta semana, mas o comunicado só foi enviado esta sexta-feira, que por acaso é o Dia Internacional dos Migrantes. Lá, a Administração Interna (cujo ministro, Eduardo Cabrita, está sob fogo) fez saber que também entrou em Portugal uma família de três pessoas, ao abrigo de um acordo bilateral assinado com a Grécia - mais um acordo que reforça a reputação de Portugal de "país de braços abertos".

São comuns, estes comunicados, enviados a conta-gotas e, de vez em quando, condensados em balanços provisórios. Garantem sempre pelo menos uma notícia, pela positiva. Não me interpretem mal. Aplaudo o facto de Portugal abrir as portas a quem não vê esperança no seu país e decide o que milhares de portugueses decidiram na década de 60 ou, bem recentemente, na crise financeira: procurar uma vida melhor noutra geografia.

E é há muito conhecido o contributo positivo global que os refugiados e os imigrantes dão a quem os acolhe. Como faz a comunidade nepalesa, cujo número se multiplica exponencialmente sem registo público de consequências negativas. Ou a integração dos refugiados que estão a trazer juventude e vida nova ao Fundão.

Mas o que vejo no que o Governo decide comunicar - ou omitir - faz-me suspeitar de uma tentativa deliberada para branquear a imagem do país. O primeiro passo é a assinatura de acordos internacionais para a colocação de refugiados; o segundo são os recorrentes comunicados, sempre que mais algumas pessoas chegam a Portugal; o terceiro é o silêncio em relação a tudo o resto. A forma como o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras acolhe quem chega pelo seu próprio pé à fronteira (e não é preciso apontar o exemplo extremo de um assassinato no aeroporto de Lisboa). O acolhimento que lhes é dado até que recebam uma resposta ao pedido de asilo. O facto de dois terços desses pedidos serem recusados. O silêncio sobre o que acontece a quem vê recusada entrada legal na Europa. E as dúvidas sobre a maneira como são integradas na sociedade, sobretudo quando terminam os apoios financiados pela Europa.

Há, em torno de uma questão política e socialmente tão sensível quanto a imigração, um silêncio difícil de quebrar, demasiadas perguntas que ficam sem resposta. Portugal é mesmo um país de braços abertos a imigrantes?

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