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Carta aos meus pais (e aos vossos pais)

Carta aos meus pais (e aos vossos pais)

Hoje é o primeiro dia do estado de emergência declarado para todo o território nacional. 19 de março de 2020 é o novo 11 de setembro de 2001. Nunca esqueceremos esta data. Saberemos sempre onde estávamos neste dia. O dia em que a nossa vida mudou para sempre. Outra vez.

Às vezes, pai, acho que sou a única pessoa que conheço com mais de 40 anos que telefona todos os dias para casa. Às vezes, várias vezes ao dia. Nos últimos dias, toneladas de vezes por dia. Às vezes, acho que sou a única pessoa que conheço com mais de 40 anos para quem o dia do pai e o dia da mãe e o dia do irmão e o dia disto e daquilo são dias sagrados. Gosto dos dias que celebram laços. Gosto dos pretextos que nos fazem estar juntos.

Hoje é o primeiro dia do estado de emergência nacional. Mas também é dia do pai. E hoje não vou sair a correr do jornal para tentar chegar a tempo de jantarmos juntos, sabendo de antemão que iria atrasar-me, porque me atraso sempre, e que a mãe iria ficar irritada por causa do atraso, e que depois iríamos ter de ficar ali meia hora em sentido até ficar tudo bem outra vez. Hoje é dia do pai e não me lembro de alguma vez não ter estado contigo neste dia. Telefono-te e dizes, "deixa lá, meu amor, todos os dias são dias do pai". Pois são, mas não é bem a mesma coisa não poder ir aí, pois não? Dias estranhos, estes, pai.

O estado de emergência vai durar até ao dia 3 de abril. Poderá ser renovado, nenhum de nós poderá saber ainda se será. Dali a dois dias farás 82 anos. E, pela primeira vez na vida, não tenho qualquer esperança de poder vir a estar contigo nesse dia. Tenho só esperança de conseguir resistir à tentação de ir aí a correr para te dar um beijo. Podia ir e acenar-te só da janela. Mas da maneira que a mãe é mãe galinha iria logo voar pelas escadas abaixo com um saco atafulhado de coisas para eu trazer. É melhor assim, é melhor não ir. O melhor para todos, às vezes, é profundamente triste.

O Governo diz que o pico do vírus será em maio, faltam ainda mais de 40 dias. Também não estarei contigo no teu dia, mãe, primeiro domingo de maio. Mas também tu, mãe coragem, és todos os meus dias e todos os meus minutos. Se este estudo estiver certo, nessa altura haverá meio milhão de pessoas infetadas. Ninguém arrisca fazer previsões e eu sou péssima a matemática, mas acho que é mais ou menos isto. Quinhentas mil pessoas, pai, achas normal? Não te assustes, há boas notícias também, a maioria dessas gripes será leve e facilmente tratada em casa. Como diz o editorial de hoje do JN, o importante, agora, é disparar coragem. E é mesmo.

Olha, acho que já percebeste, vamos perder o domingo de Páscoa, o dia mais importante do ano para nós, o dia em que limpamos o pó ao coração e recomeçamos inspirados pela fé que felizmente temos. Vamos perder a Páscoa (e aquele cabrito maravilhoso feito pela mãe), mas não podemos perder-nos uns aos outros, mesmo se agora temos de viver separados uns dos outros. Nunca a fé esteve tão perto da ciência, pai. É uma contradição tremenda, mas temos de agarrar-nos a alguma coisa. Não somos cientistas, mas podemos sempre rezar. Podes rezar por nós, pai?

Acordo a pensar nisto tudo todos os dias desde o dia 2 de março, e só me dá vontade de chorar. Estou sempre com a lágrima na primeira sala, como tu dizes, já sei. Mas depois percebo que nem é bem isso. É o medo de que saias de casa, apesar de teres jurado que não vais sair, aconteça o que acontecer. Depois de teres superado um cancro com toda a bravura há menos de um ano (sabem lá as pessoas, pai, o que é um tratamento desses em ambulatório, quando se vive no interior do país!), um tropeção numa gripe destas seria uma traição com a qual não seria capaz de lidar. É o medo de que a mãe, que continua a ser mais nova que nós os dois juntos (sabe-se lá como é que ela consegue isso, mas consegue!), se meta em aventuras tresloucadas e apanhe uma qualquer corrente de ar que a faça ter uma recaída da pneumonia. Estamos todos em risco, mas vocês os dois muito mais. Tens de ouvir o que disse o Costa esta quinta-feira.

Desta vez, é a sério, pai. Todas as frases feitas que se usam aí em casa ("Seja o que Deus quiser"; "O que tiver de ser, será") não valem nada agora. É preciso inventar frases. Este momento pede palavras novas, costas direitas, coragem dobrada. Consola-me um bocadinho saber que o Marquinho está aí. Ele é sensato e pouco dado a estados de alma como nós. Tem de ser ele a tomar conta da logística da casa, o que significa que tem de multiplicar os cuidados com ele também.

O pão e o jornal são bens essenciais, disseste-me no outro dia. É muito bonito ouvir alguém dizer que o jornal é um bem essencial. É mesmo. Por isso, os quiosques vão continuar abertos. Mas não podes ser tu a ir lá, nem a mãe. Tens aqui os motivos que podem levar alguém a sair de casa. E aqui tens o que deve fazer quem entrar em casa depois de sair. Isto só vale para o Marco, a única pessoa que pode entrar e sair. E. mesmo assim, o mínimo possível.

Há muita gente que não sabe o que fazer com o tempo que agora sobra, confinada que está em casa. Fico um bocadinho triste com isso. O que dirá então quem dorme na rua, não é, pai? Se seguires a cultura do JN, vais ver que quem quem menos tem é quem mais dá. Os artistas, precários na sua maioria, têm-se desdobrado para levar coisas boas às pessoas. E não param de dar o exemplo com o gesto. Acho que todos devíamos fazer o mesmo: em vez de nos queixarmos do tempo que sobra, ou do espaço que não estica, devíamos pensar no que podemos fazer uns pelos outros. E é tanto, pai! Todos temos alguma coisa que podemos fazer.

E o Porto tem mostrado tanto isso! Sei que ficas um bocadinho sentido quando digo que o Porto é a minha casa do coração. Sei que gostavas que eu gostasse daí como gosto daqui. Gosto muito daí, pai, mas nenhuma outra cidade me leva às lágrimas como esta. É um amor que nunca para de crescer. Tens acompanhado o que tem acontecido aqui? Temos o primeiro centro de rastreio, temos empresas a unirem-se para fabricar máscaras, temos vários movimentos a angariarem dinheiro, e temos a Câmara sempre, sempre presente em tudo. Sim, tinhas razão, pai, às vezes a revolução também se faz sublinhando o que é bem feito. Será pacóvio, não sei, mas é um orgulho viver numa cidade que nos faz, apesar de tudo, sentir que vai correr tudo bem. O Costa disse hoje que é preciso "assegurar a máxima contenção, com o mínimo de perturbação". O Porto está a fazer isso há quase duas semanas.

Também por isso decidi, como tantos aqui na redação, continuar a trabalhar. Mas para que possa continuar, preciso que tu mantenhas a promessa de ficar em casa. Pai, não me lembro de outra altura, desde que comecei a trabalhar, em que a informação seja tão importante. É este o jornalismo em que acredito, tu sabes. O jornalismo corajoso, solidário, de confiança, que ergue o dedo e diz: presente. Lê o JN no computador, pai, vais ficar orgulhoso. E dá a mão à mãe. Tenho visto várias pessoas na rua de mão dada. Fico sempre comovida, é como se dissessem: o amor é mais forte do que tu, vírus. Também acredito nisso, que só o amor nos pode salvar.

Pensa que quanto mais separados estivermos agora, mais unidos estaremos depois. E promete-me que vamos todos sobreviver para contar a história. Não saiam de casa, por favor. E convençam todas as pessoas que conhecem a não saírem de casa. Com ou sem emergência nacional. Com ou sem recolher obrigatório.

Todo o amor do mundo. E muita coragem. Até já.

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