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Casa da Música: Por menos, caíram administrações inteiras

Casa da Música: Por menos, caíram administrações inteiras

Nem sempre o silêncio é de ouro. Às vezes, é só uma ausência que queima e encobre a incompetência. A incompetência é ilegal? Não. É imoral? Também não. Mas é perigosa. Porque é o motor que dita o fracasso ou o sucesso de um equipamento, de quem lá trabalha e de quem dele é suposto usufruir. A Casa da Música está a arder em silêncio. E a maioria está a assobiar para o lado.

1998. Parece que já foi na outra vida, foi há 22 anos. Na altura, havia uma discussão recorrente, sobretudo a Norte, que se prendia com a despesa que o país inteiro iria ter, para patrocinar um evento que aconteceria apenas em Lisboa - a famigerada e derrapada Expo98.

No mesmo ano, o Porto ficou grávido da Casa Música, o parto haveria de durar sete anos. A derrapagem obedeceu ao clássico nacional, começou em 3,2 milhões de contos, acabou em cerca de 20 milhões - mais de cem milhões de euros, cinco vezes mais do que o previsto. Mas o projecto era tão ambicioso, tão urgente e tão impulsionador do que define a identidade de uma cidade - a cidade da música, dizia-se -, que houve uma espécie de perdão público em nome desse bem maior.

A Casa da Música seria não apenas uma qualquer casa com música, mas a casa-de-todas-as-músicas. Um projecto com curadoria, abrangente, inclusivo, democrático, arrebatador. Só uma bizarra amnésia poderá fazer com que alguém esqueça a responsabilidade que acarreta um projecto destes.

Pelo caminho, caíram administrações inteiras (uma delas "apenas" porque queria construir um elevador para o gabinete), directores artísticos foram decepados, milhares de páginas de jornais foram escritas e até Jorge Sampaio, então presidente da República, veio num célebre São João, ao Porto, meter as tropas na ordem. Nesse dia, épico também para o jornalismo, a cultura fez manchete num jornal nacional - o Jornal de Notícias. Parece que foi na outra vida, foi nesta. Mas o mundo mudou tanto, que este mundo é que já não parece real.

Nesse outro mundo, bem ou mal (tantas vezes mal, era Rui Rio presidente da Câmara do Porto), os políticos importavam-se e a cidade tinha "as vozes da cidade", seja lá isso o que for. Havia no território, em várias áreas, quem desse voluntariamente a cara e o nome e a honra por um projecto público. Quem se atravessasse por dever cívico.

Neste mundo, há um grupo alargado de trabalhadores precários, de prestadores de serviços, de falsos recibos verdes, de verdadeiros recibos verdes (chamem-lhe o que quiserem) dispensado (em dose dupla) pela administração da Casa da Música, um grupo que está na rua a pedir ajuda em vigílias silenciosas, que está a pedir ajuda nas redes sociais aos berros, a pedir que alguém o ouça, individualmente, coletivamente, e não há uma única voz nesta cidade, neste país (exceção feita ao Bloco de Esquerda, que capitaliza, e bem, o vazio), que pareça sequer querer parar para ouvir o que têm a dizer.

A Câmara, acionista de referência, não aparece nem fala. O Governo - o mesmo que criou apoios até para quem vive em economia paralela - não faz a mais pequena ideia do que se passa. Ou não quer fazer. Deve achar que já faz o suficiente ao colocar na Casa dez milhões de euros por ano, como um pai que oferece a consola mais cara do mercado ao filho, pedindo-lhe em troco que não o chateie. E a ministra da Cultura é o que se sabe: sobre Serralves (mais coisa menos coisa, é um caso em decalque) está "esclarecida"; sobre a Casa da Música, está à espera sabe-se lá do quê. Ao menos, que seja à espera de sair do Governo.

Nesta ausência de poder político, central e local, que monitorize, como lhe compete, as administrações e as direçoes-gerais das fundações em que tem poltrona privilegiada, as figuras que se eternizam nos cargos fazem mais ou menos o que lhes apetece. Isto oscila entre o nada e o direito que acham que têm, mas não têm, a estar calados.

E é isto que é verdadeiramente escandaloso na Casa da Música: o silêncio.

O facto de a administração dispensar pessoas nesta altura, de as filmar numa vigília para as dispensar uma segunda vez, de recusar dialogar com elas (e com a comunicação social, já agora), de ter adulterado completamente as premissas fundadoras da Casa, afunilando todas as músicas numa música única, é grave. A indiferença do poder público, da comunidade artística e da sociedade em geral é triste. Mas o silêncio é o que torna tudo chocante. Porque é a ausência de silêncio que, até prova em contrário, continuamos a fazer questão de festejar em abril. É por isso que não há mesmo nada mais revelador de incompetência do que o silêncio.

A administração da Casa da Música não tem condições para continuar. Não é só pelo caso (ainda que gritante) dos precários. É porque este caso é a gota de água num lago que fez com que tantos, há tanto tempo, já nem se lembrem que a Casa da Música existe. A não ser como aquele berloque de prata que insistimos em ter numa prateleira. Era para isto os cem milhões de euros?

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