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Como é que se diz adeus?

Nick Cave poderia ter escrito um livro, mas preferiu gravar um disco. Poderia simplesmente ter enviado uma carta ao mundo, mas preferiu ir escrevendo cartas aos fãs.

Numa das cartas mais recentes, afirmou:

"Muitos dos meus arrependimentos têm a ver com a incapacidade de dizer adeus. Durante muito tempo, a minha maneira de lidar com as coisas era cortar, fugir e não olhar para trás. Estava sempre a fugir de alguma coisa, de alguém ou de algum lugar. De uma situação desastrosa, dos meus vícios ou dos meus relacionamentos falhados. Esse estado de fuga parecia funcionar como força criativa, mas na verdade era completamente desprovida de reflexão. Sentia que, se parasse, seria comido vivo pelo caos que me perseguia como um cão vadio. Foram precisos muitos anos para que decidisse encarar o monstro imaginário do meu passado. Quando finalmente o enfrentei, percebi que um adeus sincero no momento certo teria abreviado muitas das minhas feridas antigas. Aprendi que ter uma oportunidade de dizer adeus é o derradeiro privilégio."

A carta tinha título com interrogação: "Como é que se diz adeus?" E nessa pontuação escolhida parece estar embrulhada uma espécie de apelo desesperado: Se dizer adeus é o derradeiro privilégio, como é que se diz adeus na sua ausência? Cave arrastou-nos a todos para o seu luto eterno, talvez na esperança de que partilhado ele possa ser atenuado.

Arthur, um dos dois filhos do músido australiano morreu em abril de 2014. Caiu de um penhasco, levado por um voo de LSD. Haverá sempre um antes e um depois disso. Para ele e para nós. Há quem tenha perdido a paciência para Nick Cave desde então, porque as suas sucessivas tentativas de catarse (o disco "Skeleton Tree"; o documentário "One More Time With Feeling") podem arrastar-nos para uma tristeza sem fundo; mas há também quem se tenha pacificado com ele, porque se a força criativa do arrependimento era porventura por vezes enganadora, a inspiração da sua dor incurável não é. Ghosteen, o disco duplo que nos atordoa o coração, está aí para o provar.

Os bilhetes para o concerto único da digressão europeia de Nick Cave & The Bad Seeds (19 de abril de 2020, na Altice Arena, em Lisboa) são colocados à venda esta sexta-feira às 10 horas. Imagina-se uma homilia sobre o quão pequenos e mortais somos. E como, apesar de tudo, é preciso continuar.

Também esta sexta-feira (e sábado) pode ficar a conhecer a história de Hooman Sharifi. O criador persa que emigrou (sendo aqui emigrar um eufemismo para fugir) para a Noruega quando era adolescente, apresenta o espectáculo "The dead live on in our dreams", no Palácio da Bolsa, no Porto. "Se queremos mudar o futuro, precisamos de explorar o passado e manipulá-lo para que a história se torne diferente, desde as histórias individuais até à própria história da humanidade. Como se de uma batalha amorosa se tratasse, o Salão Árabe será transformado numa arena e o espectador em testemunha dessa viagem nostálgica entre o passado e o imaginado", disse o coreógrafo norueguês. O seu solo é sobre isso, sobre a memória que o nosso corpo transporta. Nick Cave haveria de gostar de assistir.

Quem não apreciar dança contemporânea, pode sempre ir espreitar o novo filme de Woodfy Allen, que estreia em Portugal esta quinta-feira. "Um dia de chuva em Nova Iorque" foi vetado nos EUA, mas aqui não há porque não voltar a fazer uma incursão nas comédias românticas do realizador, o 50º filme da sua carreira.

Bom fim de semana.