Newsletter Editorial

Da indiferença

A deputada do Livre Joacine Katar Moreira conseguiu a proeza - roam-se os assessores de imprensa - de ser notícia todos os dias da semana. Pena é que pelos piores motivos. Ou talvez não. Ficam assim os portugueses esclarecidos ao que veio.

Do Grupo de Contacto que não contacta (em causa a abstenção da deputada numa proposta do PCP que condenava um ataque israelita na Palestina). Da entrega fora do prazo do projeto de lei do Livre sobre a nacionalidade - uma das bandeiras do partido. Ao ridículo e ofensivo ato de escolta nos corredores da Assembleia da República.

Sim, no Parlamento. Essa assembleia representativa de todos os cidadãos portugueses. Logo, dos que lhe garantiram o lugar que ocupa. Assente na pluralidade. A mesma que, acredita-se, defende.

Em causa, ficou-se a saber, a "pressão" (?!) dos jornalistas. A mesma (?!) que teve quando foi eleita. A mesma (?!) que teve no primeiro dia em que pisou a Assembleia da República. Aí não necessitou de escolta. O que mudou? Os ventos. Tornaram-se desfavoráveis. Não deixando de ser curioso que a escolta tenha sido requerida quando acabava, precisamente, de dar uma entrevista a uma televisão internacional.

Depois, seguiu-se uma queda livre. Que arrastou o partido. Com Joacine - no caso o seu assessor, que fala pela própria, ficamos a saber - a justificar o pedido, inédito e inaudito, com as "interrupções constantes" de que é alvo pela Comunicação Social. Porque, ficamos também a saber, a "cultura de trabalho" da deputada é uma "cultura de descanso, no sentido intelectual do termo".

Ora, cultura de descanso é algo que a maioria dos portugueses desconhece. Nem física, quanto mais intelectual. E também não são os atos de amor de aumento do salário mínimo nacional que os tranquilizam. É que, em Portugal, há 9,7% da população que mesmo estando empregada não consegue sair da situação de pobreza.

A cereja no topo do bolo não tardou. "Ontem um jornalista entrou-nos pelo gabinete. Foi isso. There, I said it. Larguem o osso", escreveu o dito assessor no Twitter. Com esta deixa levou-se a discussão para o nível da qual ela nunca devia ter saído. Da indiferença.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG