O Jogo ao Vivo

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Deus lhe pague

A música popular e as palavras que lhe dão corpo, se forem buriladas exatamente até à medida certa, constantes e espessas, como uma água cristalina cheia de mar, transformam-se em projeto literário, mesmo que não marcadamente declarado, ainda que sem outra enunciação do que a sua evidente certeza de serem certas.

São muitas palavras para descrever a obra de Chico Buarque, porque não sei fazê-lo de outra forma, bem melhor. Lamentavelmente, a clareza de Chico é irrepetível e singular - tem uma voz que não se mistura nem se confunde, como as pernas dos amantes em "Eu te amo".

Mas a obra do músico, compositor, poeta, escritor e dramaturgo brasileiro obriga-nos pelo menos a refletir sobre os desavindos da vida, sobre "a gente sofrida" ("A banda") que se vai apenas distraindo da dor pelas bandas que vão passando. A luz efémera não resolve o mais escuro da miséria humana.É preciso nunca calar. "Como é difícil acordar calado /Se na calada da noite eu me dano /Quero lançar um grito desumano /Que é uma maneira de ser escutado /Esse silêncio todo me atordoa /Atordoado eu permaneço atento /Na arquibancada pra a qualquer momento/ Ver emergir o monstro da lagoa" ("Cálice").

Chico Buarque venceu o Prémio Camões 2019 e ficou "feliz e honrado". Todos concordaram: Chico merece.

Foi a boa novidade numa semana recheada de boa Cultura. Em Cannes, como esperado, Quentin Tarantino e o seu elenco de luxo (de que Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Margot Robbie são uma pequena(!) amostra), deram show para apresentar "Once upon a time in Hollywood", o novo do realizador norte-americano. Tarantino já venceu em Cannes, com "Pulp Fiction", em 1994, e o novo filme parece ter sido bem recebido pela crítica. Mas mais detalhes só para quem conseguiu ver o filme no festival. A produção impôs muitas restrições ao que se pode divulgar sobre a trama. Ainda assim, o JN viu e conta-lhe o que é possível, para já, contar.

Vale também a pena ler a entrevista que fizemos ao escritor chileno Alejandro Zambra, que visitou o Porto no FITEI (que o JN tem acompanhado diariamente). Zambra refletiu sobre a democracia, a ditadura e a literatura. E fez uma revelação: ele, que é visto como o herdeiro de Bolaño, só o descobriu, como leitor, depois de descobrir Pessoa.

Há ainda uma outra notícia que pode aproveitar: como o JN apurou, apesar de estarem a ser vendidos a bom ritmo, há ainda bilhetes para os principais festivais de verão, cuja época começa já amanhã, na Alfândega do Porto, com o North Music Festival. Bush, Franz Ferdinand ou Capitão Fausto estão no cartaz.

Se não teve oportunidade de assistir no local, ou em direto em www.jn.pt, recomendo-lhe que veja o resumo da grande conferência que o JN organizou, que juntou numa mesa redonda, para discutir a Cultura, Miguel Araújo, músico, Álvaro Covões, produtor musical da Everything is New, Paulo Brandão, diretor artístico do Theatro Circo e Gil Ferreira, vereador da Cultura da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira.

Todos concordaram sobre o papel que as Artes têm na formação cívica e pessoal. É a Cultura que nos salva, vale a pena repeti-lo, sempre, até porque só a Cultura nos faz a identidade, nos confronta com o preconceito, nos faz avançar, mesmo que nos inquiete, que nos constrói por dentro aquilo que queremos ser por fora.

Tiremos as dúvidas a quem ainda as tem, voltando a Chico e a "Construção":

"Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado

(...)

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague

(...)

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague"

Parabéns Chico Buarque!