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É preciso imaginar Joker feliz

É preciso imaginar Joker feliz

Não é possível comparar o Joker de Heath Ledger (2008) com o Joker de Joaquin Phoenix (2019). Mas é possível dizer que a tristeza do segundo ultrapassa o cinismo do primeiro. E isso é um problema para corações moles.

O joker encarnado por Heath Ledger (1979-2008) na versão de Christopher Nolan, há dez anos, "Batman: O Cavaleiro das Trevas", é de uma dimensão tão elevada que, além de ter ofuscado o próprio Batman, parecia impossível de superar. O que Joaquin Phoenix conseguiu fazer agora, na prolepse contada pelo improvável Todd Phillips, coloca as apreciações noutro nível: é verdade que os dois protagonistas do filme são o próprio filme (os dois atores ficarão para sempre inevitavelmente associados a estas películas), mas se no anterior ainda conseguimos rir (a cena de Ledger vestido de enfermeira dentro carro da polícia, a rir, é inesquecível), neste quase temos vontade de chorar. Porque onde um é um filme de aventuras, o outro é um filme filosófico. E porque a loucura e a tristeza deste Joker são-nos atiradas à cara com a força de um soco seco e nós queremos mais do que apenas desculpá-lo, queremos quase salvá-lo - não dele próprio (o que faria bastante sentido), mas do mundo construído à sua volta. É tal e qual como no ensaio existencialista "O Mito de Sísifo", que Albert Camus escreveu há quase 80 anos. "É preciso imaginar Sísifo feliz". Antes de tudo, para conseguirmos, nós próprios, sobreviver.

O filme está em exibição no Cinema Trindade, no Porto, e merece absolutamente ser visto. Se tiver o azar de a sala estar esgotada - é a estreia mais concorrida dos últimos anos -, compre bilhete para o filme do lado, "Parasitas", de de Bong Joo-ho. E não vai arrepender-se.

Ou então cole o cinema ao Nobel da Literatura, anunciado esta quinta-feira em dose dupla, e dedique-se às obras do escritor, argumentista e cineasta Peter Hadke, visita assídua em Portugal. Se o austríaco venceu a edição de 2019, a polaca Olga Tokarczuk venceu a edição de 2018. Basta um passeio por alguns portais de leitores e literatura, para perceber que as duas escolhas estão muito longe de reunir consenso. Amanha, a edição em papel do JN conta-lhe tudo.

E desvenda também os nomes da 6ª edição do Fórum do Futuro - Festival Internacional do Pensamento, que regressa ao Porto entre 3 e 9 de novembro. Num ano dedicado às "Travessias", destaque para a escritora e ativista nigeriana Chimanda Ngozi Adichie, de 42 anos. Considerada pela "Time" como sendo uma das "100 pessoas mais influentes do mundo", irá refletir sobre o racismo e a perda de dignidade a partir do seu pórpio percurso. Adichie é apenas um dos 22 nomes que vão inundar de reflexão os sete dias do festival.

Outro festival que regressa amanhã, sexta-feira, para uma edição história é o FIMP - Festival Internacional de Marionetas do Porto. O certame dirigido por Igor Gandra celebra 30 anos de percurso com uma maratona de espectáculos até ao dia 20 deste mês.

E outro grande regresso é o Amplifest, no Hard Club, no Porto. Depois de um intervalo que dura desde 2016, este sábado e domingo é a oportunidade para ver ou rever bandas como os maravilhosos Deafheaven (domingo, 21h45), que devem trazer com eles esta espécie de belo manifesto: "Ordinary Corrupt Human Love" - um disco sobre o amor e a perda. E o absurdo. Tanto que quase vale a pena voltar a Camus:

"A partir do momento em que foi descoberto, o absurdo é uma paixão, a mais lancinante de todas. Mas o problema está em saber se podemos viver com as nossas paixões, se podemos aceitar a sua lei profunda, que é a de queimar o coração que elas ao mesmo tempo exaltam."

Bom fim de semana.