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E quem paga é… a vaca

Nunca fui grande adepto de carne de vaca. Para ser sincero, em criança e na juventude detestava-a. Só comia se a minha mãe me obrigasse e era ao faz-de-conta. Preferia ficar com fome do que engolir aquilo. Não, não era vegetariano. Na altura, nem se falava disso. Tampouco se falava do aquecimento global. Já estava bem entrado nos vintes quando me aventurei. Mas não por uma qualquer. Ainda hoje prefiro se for certificada e nada de mal passada. Mesmo assim chega-me ao prato uma ou duas vezes por mês. E se não chegar nenhuma não há problema.

Ora, sou o tipo que não se importaria nada se estivesse na pele dos estudantes da Universidade de Coimbra, que vão deixar de comer carne de vaca nas 14 cantinas, a partir de janeiro de 2020. O reitor, Amílcar Falcão, disse, esta terça-feira, que é o primeiro passo para ser a "primeira universidade portuguesa neutra em carbono" até 2030. É uma forma de "diminuir aquela que é a fonte de maior produção de CO2 que existe ao nível da produção de carne animal".

Calhou bem só ter visto este último fim de semana o filme "Temple Grandin", de 2010. É uma extraordinária biografia sobre a vida da americana Mary Temple Grandin, nascida em 1947. Apesar de autista, conseguiu doutorar-se em Zootecnia e introduziu novos métodos que respeitam os animais para abate, nomeadamente vacas, tanto nos ranchos como nos matadouros dos Estados Unidos. Basta ver a película com atenção para perceber a dimensão daquelas explorações com milhares e milhares de animais e porque a produção de CO2 neste setor é tão preocupante agora. Claro que as coitadas das vacas não são as únicas culpadas, mas...

Entretanto, a Salomé Filipe dá conta de que os produtores de bovinos portugueses dizem-se "em choque" com a medida anunciada pelo reitor Amílcar Falcão.

Para além de deixar de consumir anualmente cerca de 20 toneladas de carne de vaca, a Universidade de Coimbra tem também outras medidas para melhorar o ambiente. Mas não é a única. António Fontainhas Fernandes, reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real, anunciou, também, a criação um "campus carbono zero" até 2030. O projeto inclui uma aposta na eficiência energética, numa ecovia e no combate ao plástico.

Mais: o Instituto Superior de Engenharia do Porto vai acabar com a venda de garrafas de água de plástico de 33 centilitros no campus, uma vez que, anualmente, são consumidas quase 160 mil. Se há guerra que pegou de estaca nos últimos tempos foi a do plástico. Não há evento que se preze que não a tenha em conta. Se for assim contra as vacas, temo que dentro de alguns anos possam correr risco de extinção.

Por falar em universidades, também se soube esta terça-feira que, no âmbito do projeto "Praxes com sentido", milhares de estudantes de várias faculdades da Universidade de Lisboa vão ajudar o Banco Alimentar Contra a Fome nos próximos dias. Depois de tanta polémica à conta das praxes académicas, tantas vezes justificada, é hora de começar a mostrar as suas virtudes.

Tal como é virtuoso o início das consultas de avaliação multidisciplinar para tratamento cirúrgico da obesidade no Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, em Penafiel. O jornalista António Orlando escreve que, através destas consultas, os doentes referenciados por esta patologia vão ser admitidos, avaliados, orientados e propostos para tratamento cirúrgico da obesidade.

Ainda na área da saúde, a Marisa Silva conta que o Hospital de S. João, no Porto, prevê assinar o auto de consignação da obra da nova ala pediátrica ainda este mês, permitindo que a montagem do estaleiro avance em outubro.

Só boas notícias... exceto para as vacas!