Newsletter Editorial

Em que é que ficamos, OMS?

Em que é que ficamos, OMS?

Como se não bastasse a desinformação constante, uma (acredito eu) intencional, outra não, a que temos assistido nos últimos meses, à conta de uma pandemia que virou o mundo do avesso, continuam a surgir informações que baralham o mais comum dos mortais. No dia em que se soube que a Organização Mundial de Saúde (OMS) tinha afirmado que era raro pessoas sem sintomas transmitirem o novo coronavírus, a mesma entidade, mais tarde, veio dizer que afinal não se pode tirar essa conclusão. Em que ficamos?

Nos dias que correm, procuramos várias luzes ao fundo do túnel, quando elas nem sempre surgem. Por isso, as poucas notícias positivas que vão surgindo acalentam esperanças de que o pior esteja para passar, com tudo o que isso ditará sobre o nosso futuro. Foi o que aconteceu, hoje, quando se soube que a OMS tinha dito que "é muito raro" pessoas com covid-19 transmitirem o novo coronavírus. Mas a luz apagou-se, poucas horas depois. Aliás, especialistas portugueses já a tinham vindo a apagar, alertando que não era bem assim. O certo é que, efetivamente, em novas declarações, Maria Van Kerkhove, principal responsável técnica do combate à pandemia, veio esclarecer que é errado concluir que a transmissão da covid-19, por parte de pessoas assintomáticas, é rara. A questão multiplicou-se pelas redes sociais e pelas conversas de café. E eu replico-a, aqui: afinal, em que ficamos, OMS?


Entende-se que, todos os dias, a toda a hora, surjam novos dados sobre um novo vírus que o Mundo tenta, de forma hercúlea, combater. Sabe-se muito, mas, pelos vistos, ainda se está longe de se saber o suficiente. Não se entende tão bem, contudo, que se profiram declarações públicas que possam levar a conclusões erróneas, numa situação com a gravidade daquela pela qual todos estamos a passar. Baralham, confundem. E tudo aquilo de que a população mundial, neste momento, não precisa é de ficar ainda mais baralhada e confusa. Pedem-se clareza e transparência. Quando não é possível assegurá-las, então, peço eu, mais vale a cautela.


Não é a primeira vez, esta semana, que é dado o dito pelo não dito. Num tema em nada comparável ao da pandemia, a alegada presença de um crocodilo perigoso, nas águas do rio Douro, em Espanha, causou alarme social. Só que, afinal, veio-se a saber que o crocodilo pode bem ser...uma lontra. E, hoje, sem certezas de que mamífero (se for um mamífero) se trata, sabe-se apenas que as autoridades espanholas vão continuar, nos próximos dias, à procura da "misteriosa" espécie. A montanha pariu um rato?
Por cá, o insólito acontece em Setúbal, quando um boi salta de um navio, no porto de Setúbal, direto para o rio Sado, obrigando à intervenção da Polícia Marítima. Ou, no mesmo concelho, em Azeitão, quando uma família espera, há mais de um ano, por notícias sobre um homem que desapareceu, sem deixar rasto, quando foi dar uma caminhada.


Na busca pela luz de que falava no início do texto continuam, também, voluntários e utentes do Seara - Centro de Apoio Mútuo de Santa Bárbara, em Arroios, Lisboa, que foram ontem despejados do edifício que ocupavam, ilegalmente, há um mês. O despejo, feito à força por uma equipa de seguranças privados, terá sido também ele ilegal. Ilegalidade (e violência) a combater ilegalidade, é justo? Ilegalidade para proteger os mais vulneráveis, perdoa-se? As opiniões dividem-se, principalmente entre partidos políticos. Mas que seria mais humano discutir-se todas essas questões, depois de aquelas pessoas terem um teto permanente sob o qual dormir, lá isso seria. É que só ainda sete foram realojadas. Acendam-se as luzes da humanidade, por favor!

Outras Notícias