Newsletter Editorial

Estamos inconsoláveis

Qual Brexit, qual Johnson, qual quê, a pior notícia que nos chega do lado de lá da Mancha é a triste despedida de um homem que tornou o processo do Brexit numa britânica de humor do mais fino recorte. Um homem que nos ajudou a suportar horas e horas de debate na Câmara dos Comuns, que nos ajudou a perceber que, se calhar, toda aquela gente andará, se calhar, a brincar ao Brexti.

Falamos de John Bercow, o colorido presidente da Câmara dos Comuns, "speaker" na linguagem da democracia britânica, que é como poderia dizer moderador, porque ali é tão preciso. Colorido apesar des vestes negras, porque Bercow encantou-nos com gravatas psicadélicas a brilhar no cinzentismo britânico, muitas vezes com um ou outro tom a condizer com o couro verde das poltronas de Westminster. Colorido porque Bercow grita. Muito. Muito alto. Era aquele sinal suficiente para acorrer aos televisores em dias de votações sensíveis. "Order!", com todos os decibéis imagináveis. Era a voz que desatava risos quando punha deputados na linho como se estivesse a falar com os filhos à mesa, em frente aos pratos de sopa. Que mandava um eleito tomar medicamentos para se acalmar, que dizia a outro que devia tratar os colegas de bancada como trataria a mãe de um colega de turma do filho. Que, conservador, casou com uma trabalhista e atribuiu-lhe a responsabilidade de ter no carro autocolantes a clamar "Bollocks to Brexit" (googlem, por favor, por uma questão de recato).

John Bercow anunciou que deixava de ser speaker no dia 31 de outubro. Terá sido uma promessa à mulher. Isto se não houver eleições antes, como bem quer o primeiro-ministro, Boris Johnson. Porque aí, não vai integrar as listas do Partido. Promessa à mulher? Ou deserção, ele que tem dado sinais claros de que "Bollocks to Brexit" ao gerir a agenda marcando votações que sabia serem prejudiciais aos promotores de um Brexit mais à bruta? Seria apenas o enésimo a largar o barco desde segunda-feira passada e a deixar o panorama político britânico num caos inédito. E a Europa na incerteza, provavelmente até às vésperas de 31 de outubro, data fixada para a saída do Reino Unido da União Europeia. Se for adiado por falta de um acordo consensual com Bruxelas até ao dia 19, já sabemos que as sessões parlamentares sobre o Brexit vão tornar-se naquilo que verdadeiramente são: uma valente xaropada. Porque Bercow era um Monty Python de Westminster...

(fora isso, tudo na mesma em terras de sua majestade)