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Imagine que todos os dias vai ver o seu pai a morrer

Imagine que todos os dias vai ver o seu pai a morrer

Imagine que um dia o seu pai sai de casa para procurar trabalho, para que toda a família possa viver um pouco menos apertada. Quem nunca?

Imagine que o seu pai, na flor e na força dos 40 anos, compra passagem de avião para o país mais seguro da União Europeia, terceiro mais seguro do Mundo. Imagine que esse país onde o seu pai espera fazer um pé de meia, tantos são os portugueses que o fazem desde os anos 60 procurando noutros lugares do mapa o que lhes falta na terra mãe, é o país que mais prémios de turismo somou, nos últimos anos. O sol, as praias azuis, a temperatura amena, a hospitalidade lendária, talvez tenha dado consigo a sonhar que um dia, quando acabar os estudos que o seu pai pagou com suor, vá ser também turista nesse país.

Imagine que à entrada do aeroporto desse destino escolhido (aeroporto também premiado, este ano, pela "experiência segura" e pela "atenção ao passageiro"), o seu pai encontra uma força de segurança inúmeras vezes distinguida pelo seu labor. Chama-se Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), soa a gabinete de ajuda - com a papelada, a documentação, a identificação. O serviço é aquilo a que soa, está lá escrito na missão do equipamento que aloja 900 (900!) inspetores. O que poderia haver para temer, não é? Aparentemente, o seu pai acabara de chegar ao único lugar do mundo civilizado onde nada de mal poderia acontecer-lhe. Às tantas, até sonhou que o seu pai regressaria a casa antes do Natal. Talvez com presentes para todos.

Imagine que o dia em que o seu pai saiu de casa, para acautelar a dignidade do seu futuro, foi a última vez que o viu vivo. E imagine que, a partir de agora, todos os dias vai ver o seu pai a morrer. Vai ver o seu pai a morrer na televisão, nos jornais (sem jornalismo em que gabinete teria ficado enterrado este caso?), nos relatos dos vizinhos e dos colegas da escola, e todos os dias dentro da sua cabeça. Imagine que a visão da morte do seu pai vai persegui-lo até ao último dia da sua vida. Como não?

Imagine que o Governo desse país, elogiado por ser um dos poucos países da Europa que ainda não se radicalizou através das eleições, não demitiu o ministro que tutela o SEF e que fez à diretora do SEF o mesmo que o seu pai tentou fazer: emigrar. É irónico, não é? A sorte que faltou ao seu pai brindou esta mulher na fuga às responsabilidades: vai ganhar 12 mil euros por mês. O que faria na Ucrânia com esse dinheiro, país onde o salário mínimo não chega a 180 euros?

Imagine que esse Governo e respetiva oposição não conseguem pensar em nada melhor do que num jogo de ping pong entre quem defende a extinção ou a reforma ou a continuidade do SEF e entre quem é quem na hierarquia que faz os anúncios desse futuro improvisado. Fraquinho, não é?

Em Portugal (é esse o nome do país que o seu pai escolhera), já morreram milhares de pessoas este ano. Só de covid-19 morrem quase 100 por dia. Mas há uma só morte que vai envergonhar-nos enquanto existirmos. Pelo menos àqueles que ainda sabem distinguir o bem do mal. Que todos aqueles que, como Ihor Homeniuk, foram mal tratados às mãos de quem exerce o poder que tem com os pés, não se inibam de se fazer ouvir.

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Respire fundo, leitor. E decore três datas que talvez possam dar-lhe alguma esperança num mundo em que às vezes custa viver.

1) O plano de vacinação, em Portugal, arranca a 27 de dezembro. Quase dez mil doses irão ser administradas no que sobra deste ano, e mais 300 mil chegam em janeiro do ano novo.

2) O novo estado de emergência proposto pelo presidente da República vai prolongar-se até ao dia 7 de janeiro e, pela primeira vez, prevê o crime de desobediência.

3) 18 de dezembro, ou seja, esta sexta-feira, que a cultura continue sempre a salvar-nos os dias: concerto irrepetível dos Blind Zero, acompanhados da Orquestra Juvenil da Bonjoia, para assistir, às 19h30, no Rivoli, no Porto; "A Criada Zerlina", primeiríssima encenação do cineasta João Botelho, que escolheu nada menos do que a portentosa Luísa Cruz para protagonizar o texto do austríaco Hermann Broch. É no Teatro Carlos Alberto, no Porto, às 19 horas; estrondosa estreia do alemão Frank Castorf em Portugal, com "Bajazet - Considerando o Teatro e a Peste", que sobe ao palco do Teatro Nacional São João, às 18 horas.

E, entre muitas outras hipóteses, tem a possibilidade de ir ao cinema - no Teatro do Campo Alegre, no Porto, e no Nimas, em Lisboa, prossegue o ciclo obrigatório de Wong kar-Wai - e ao circo. O Coliseu Porto Ageas oferece, até ao dia 3 de janeiro, um dos mais sublimes espetáculos de Natal que aquela sala já recebeu.

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