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A abstenção é inevitável

A abstenção é inevitável

O povo não está tão interessado na política como os protagonistas gostam de pensar (e assegurar).

É por não estar interessado que se abstém.

No dia em que se interessasse, porventura começaria uma nova revolução.

Esta semana, os cabeças de lista dos partidos portugueses com assento no Parlamento Europeu encontraram-se no primeiro debate televisivo sobre as eleições. Deveria ser sobre programas e promessas, mas não foi. Os candidatos preferiram trocar galhardetes ideológicos, desconversar (como me dizia a minha avó, quando estava na "idade do armário"), chamar à mesa assuntos fora do prazo e temas mais batidos do que o bife dos pobres.

Como manda o protocolo, cada qual à sua maneira, os candidatos apelaram ao voto para combater a assustadora abstenção nas eleições europeias (são já no dia 26, para os nossos leitores mais distraídos). Mas por que é que o português há de votar numa coisa para uns sujeitos irem lá à Europa marcar presença? Qual a motivação? A pura dedicação cívica (que não é cultivada em Portugal, já agora)?

A verdade é essa: o povo não tem motivos para votar, nem nas eleições nacionais e muito menos nas europeias. E quanto mais os políticos se dedicarem às manobras do costume, menos votarão. Quanto mais eleitoralismo houver, menos eleitores haverá.

Veja-se o caso "quente" desta sexta-feira. Os partidos da dita Direita - PSD e CDS - uniram-se aos alegados partidos de Esquerda - PCP e BE - para reconhecer o tempo de carreira dos professores como sendo de nove anos, quatro meses e dois dias. O Governo só tinha negociado com os sindicatos o reconhecimento (e reposição faseada) de dois anos e oito meses e 14 dias. Pronto, crise política imediata. Governo ameaça demissão. É tudo mentira, fantochada, lágrimas de crocodilo, responderam os líderes da oposição. É ou não é? Em quem confiar?

António Costa não esclareceu. Deixou a ameaça que pode abalar o pobre povo: se a iniciativa for aprovada, as contas públicas entram em novo descalabro, quem sabe regressa a 'troika' e o desemprego, a governação torna-se insustentável e o Governo demite-se. O povo que decida quem é o próximo herói (ou vilão).

E o povo, quer mesmo saber? Ou melhor, os líderes políticos acham que o povo vai votar neste ou naquele por causa da novela do Parlamento? Que é desta que o povo vai perceber quem é que disse a verdade, quem é que defendeu o povo, quem é que tem princípios ou quem é que cumpre o que prometeu? O descrédito dos políticos e dos partidos é doloroso. O povo há muito que decidiu que é tudo mentira. O crescimento da abstenção é, cada vez mais, inevitável.

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