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A semana em que falamos das crianças. Sem as ouvirmos

A semana em que falamos das crianças. Sem as ouvirmos

Chegada ao fim desta semana ganha força a minha convicção de que as nossas crianças têm cada vez menos direitos. Andamos sensivelmente quase toda a semana a falar delas. Mas nunca com elas. A decidir o futuro delas. Mas sem as ouvirmos. Em idades em que têm já tanto para dizer.

Em causa, a lei de identidade de género. Que estupidamente ficará resumida à lei WC. Falou-se em minorias. Falou-se em pilinhas. Desculpe o leitor. Os adultos falaram em minorias. Os adultos falaram em pilinhas. Publicaram-se bandas desenhadas insultuosas. Também por mentes adultas.

Mentes adultas que se esquecem que já foram adolescentes. E que não tendo, provavelmente, feito transições de género, tiveram que lidar com a puberdade. E esta lei vem proteger a autonomia. A autodeterminação. Acima de tudo, a privacidade. Perguntem a uma criança se gostaria de ter uma cortina no chuveiro do balneário da escola.

Como - e pode o leitor achar não vir a propósito - se calhar também deveria pensar-se no pai que vai buscar a filha de sete anos e tem que a ajudar no banho. A que casa de banho vai? À das mulheres? É corrido aos berros. À dos homens? A criança tem sete anos, certo? Solução? Toma banho em casa. Ou lá vai a mãe. Outra vez.

Mas na semana em que assistimos à infantilidade dos adultos - quantos deles fechados nos seus desejos secretos? -, somos confrontados com o Estado no seu pior. Provando, mais uma vez, que as crianças não têm direitos. Nem quem os garanta. Quem os fiscalize.

Na semana em que uns brincavam aos WC, as "gémeas", assim ficaram conhecidas, saíram do submundo. Graças a uma senhora que fez uma denúncia anónima para a linha SOS Criança (116111). Foi a única que não falhou. Todos os outros falharam.

Porque tudo estava sinalizado. Tudo era do conhecimento de todos. Estas meninas foram salvas aos 10 anos de idade. Tinham sido sinalizadas aos quatro anos. Roubaram-lhes seis anos de vida. Seis? Dez? A vida?

Destas duas vidas a sociedade política, ou lá o que isso seja, não se indignou. Não protestou. Não ameaçou. Não se lhes ouviu um pio. Nem a outra sociedade. Nada. O importante mesmo é hostilizar e não perceber a dimensão da identidade de género. A pressão e o bullying a que as crianças estão sujeitas.

As nossas crianças estão hoje sob uma pressão enorme. De toda a sociedade. Da escola. Que quer bons alunos. Porque há rankings. E bónus. Dos amigos. Quem têm o telemóvel XPTO e deitam-se às 23 horas. Dos pais. Que os querem bons alunos. E então leva lá com uma enormidade de explicações porque tens que ser Excelente a tudo. E pelo meio toma lá o iPhone, o iPad e a Xbox que os pais também têm vida social, sim?

E isto tudo começou pelos direitos, lembra-se? Consagrados na Convenção sobre os Direitos da Criança, ratificada por Portugal em 1990, que garante o superior interesse da criança, o princípio da não discriminação, a opinião da criança e a sua liberdade de expressão, entre outros direitos.

Porque, como escreveu, Eça de Queirós, "a criança portuguesa é excessivamente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os Portugueses, só começamos a ser idiotas - quando chegamos à idade da razão. Em pequenos temos todos uma pontinha de génio". E, como vimos, nesta semana muitos chegaram à idade da razão.