Newsletter Editorial

A semana sagrada das livrarias

A semana sagrada das livrarias

Excepcionalmente, vou escrever na primeira pessoa. Esta semana, tão singular no planeta dos livros, haverá de amnistiar-me.

Sempre pensei, com alguma vergonha de mim própria por me permitir pensar assim, em como sobreviverão as pessoas que não gostam de ler. Há quem goste de ler e há quem goste de jogar bilhar, e nem por isso os jogadores de bilhar devem gastar um segundo da sua vida a pensar no que farão as pessoas que não gostam de jogar bilhar. Cada um gosta do que gosta e tudo bem. Infelizmente, reconhecer isto nunca anulou a minha incompreensão que se confunde facilmente, e com razão, com preconceito. O poeta brasileiro Mário Quintana dizia: "Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas". É impossível não concordar com isto e não desejar que o mundo mude pela leitura.

Estamos habituados a notícias que nos falam de livrarias que fecham e a estudos sobre portugueses que não leem. Em média cada português compra 1,3 livros por ano e 37% pura e simplesmente não lê. Estamos habituados a notícias destas, desmoralizadoras, sobre hábitos de leitura e sobre a angústia da sobrevivência de livrarias. Por isso, quando as notícias contrariam esta tendência e quando, ainda por cima, acontecem todas na mesma semana, é caso para celebrar.

No Porto, a Livraria Moreira da Costa, fundada há 117 anos, ganhou esta quarta-feira a guerra judicial ao Hotel Infante Sagres. O hotel de cinco estrelas, comprado pelo grupo The Fladgate Partnership, tentava desde 2016 despejar a livraria para construir um SPA. Perdeu. É vitória que comove. "Éramos a aldeia do Obélix a lutar contra um império e foi o apoio das pessoas da cidade que nos permitiu resistir nos últimos anos. Não foi fácil, mas cá estamos com a loja aberta", comentaram Susana Fernandes e Miguel Carneiro, donos da livraria/alfarrabista mais antiga do Porto.

Um pouco mais nova, a Livraria Lello, que definhou durante um enorme período de tempo, chega aos 113 anos a vender mais de 1200 livros por dia e esta quinta-feira comprou o magnífico Teatro Sá da Bandeira por 3,5 milhões de euros. Pode questionar-se muita coisa na Lello - as entradas, os turistas, o acesso, a harrypottermania, a ausência de silêncio -, pode gostar-se ou não das filas e da fórmula, mas não pode negar-se a sua vitalidade, a sua infinita beleza e sobretudo o papel cada vez mais importante que desempenha na cidade e na exportação da cultura nacional.

A livraria Flâneur, projeto de gente que lê a sério, Arnaldo Vila Pouca e Cátia Monteiro, acaba de criar o programa "Amigos da Flâneur", que consiste num apoio financeiro de 12€ por ano. Em troca, esta casa maravilhosa - que é também editora e que é a minha preferida na cidade - oferece "5% de desconto em todos os livros. Ou um lanche ou um livro." Um livro imperdível só possível de encontrar aqui: "Na presença da ausência", de Mahamoud Darwich.

O Bairro dos Livros, romântica cooperativa do Porto que já soma oito anos de criatividade, acaba de desenvolver uma encantadora arca de tesouros para a Livraria Lello. Lá dentro encontram-se histórias de Fernando Pessoa, de Camilo Castelo Branco, de José Saramago e mais. São oito livros ilustrados para miúdos, a que se junta um pop-up da escadaria, duas figuras de cartão e um puzzle do vitral. Ou seja, pela primeira vez é possível levar um bocadinho do carisma da Lello para casa.

Em Lisboa, a Livraria Travessa, criação com 44 anos do brasileiro Rui Campos, acaba de chegar ao Príncipe Real. É a primeira Travessa a ter existência fora do Brasil e a nona daquela cadeia. O que vem acrescentar, perguntarão? Seguramente, a possibilidade de ter acesso livre a todos os autores brasileiros que nunca encontramos. Já experimentaram comprar Hilda Hilst em Portugal sem ser "A Obscena Senhora D" e "Cartas de um sedutor"? Ou Ruben Fonseca dos primeiros tempos? Agora há esperança.

São tempos bons para os livros e as livrarias. Logo, para nós. Ou assim parece.
Porque entretanto também já começou a Feira do Livro de Lisboa, três sugestões de leitura e/ou aquisição para o fim de semana:

1. "Serotonina", novo romance de Michel Houellebecq.
2. No passado e no futuro estamos todos mortos, o novo livro de Miguel Esteves Cardoso
3. "Chama", de Leonard Cohen

Bom fim de semana!