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Agustina. E se a trouxermos para casa em vez de a levarmos para o panteão?

Agustina. E se a trouxermos para casa em vez de a levarmos para o panteão?

Há uma condição indispensável ao romantismo para ele poder ser inteiro: o exagero. Se não for exagerado não é romântico. É como o amor. E a dor. É como a amizade. E a admiração. O exagero é a medida certa de todos os sentimentos que nos acontecem cá dentro e não têm ponto de fuga.

Haverá exagerado romantismo no desejo de que todo o país se curvasse, como Marcelo, diante do génio de Agustina. Haverá exagero na dor que se sente pela separação de alguém que nunca nos entrou em casa se não na forma de folhas de papel. Haverá exagero na admiração que se tem por alguém que arrebata a plateia que é cada célula que somos?

Agustina, a figura do Porto que partiu sem partir esta semana, será a maior e a mais inimitável de todas as escritoras portuguesas.

Como bem disse o Presidente da República, sempre presente, sempre disposto a salvar a honra do país, "com o seu génio e a ligação que tinha às suas raízes, Agustina revelou-nos esse Portugal que estava a acabar e o outro que começava. Ao fazer os seus retratos de família, e porventura até da sua própria família, foi fazendo o retrato dessa mudança, de um Portugal rural, antigo regime, século XIX, que se foi convertendo num país também urbano, e depois metropolitano. Agustina conhecia a natureza humana e conhecia bem as personalidades desses vários Portugais, e através das suas personagens foi pintando o retrato psicológico e sociológico dessa mudança."

A Câmara do Porto decretou dois dias de luto pela autora que nos deu mais de meia centena de romances tão obrigatórios quanto a literatura pode ser. O Estado português apenas um. Talvez vivamos num tempo sem espaço para a euforia do amor pela arte.

De todas as palavras usadas para definir Agustina, ninguém usou uma das que melhor a veste: desbragada. Agustina é desbragada, não tem freio nem filtros, é incómoda, inconveniente, alérgica ao verniz, está basicamente a borrifar-se para o que pensamos dela. Tudo nela sabe a sumo de limão sem açúcar. Não está aqui para nos dar palmadas nas costas, está aqui para nos fazer descobrir quem somos fora da construção social que projetamos. E para nos ensinar a rir de nós próprios. A nós individualmente, a nós como povo, como país. A nós, Porto.

Seríamos outros sem Agustina, tão menores, mas Agustina também teria sido outra sem o Porto. E o Douro. Daí o desgosto duplo. Porque ela se foi e a (so)ci(e)dade não se ergueu curvando-se.

Não há duas oportunidades para uma despedida. E uma despedida a mais das vezes é apenas o amor todo de uma vida concentrado num momento. Como um shot de gratidão, trago único. E, no entanto, a despedida de Agustina Bessa-Luís (1922-2019) esteve longe da multidão que lhe era devida. Talvez porque, como confessou o escritor e jornalista José Viale Moutinho, madeirense há muitas décadas adotado pelo Porto, tenha faltado à maioria a força que ele também não teve. "Não estranhem, meus caros, que eu não apareça pelos lugares das exéquias, pois falta-me a força necessária para dizer adeus a alguém cuja genialidade reconheço ímpar e está comprovada pela sua obra notável e memória dos momentos comuns", escreveu no seu Facebook.

Mas a intimidade e a amizade de Viale Moutinho com Agustina não é replicável por todos os ausentes. Por isso, talvez a hipótese mais provável seja aquela que João Pereira Coutinho avançou na sua coluna da "Folha de S. Paulo": "Uma parte do país letrado que se curva perante Agustina na hora da morte foi aquele que, décadas atrás, olhava com sobranceria para uma escritora doméstica, coquete, inconsequente, tida por "conservadora" ou até "reacionária".

A análise de Coutinho, que vê em Agustina o que ela é, "um génio que só acontece raramente na vida de uma língua", definindo a sua obra como "um tratado filosófico universal a respeito da natureza humana", só peca pela contabilidade. O país letrado não se curvou, faltou (a RTP, numa notável emissão em directo, deixou-o bem à vista). Faltaram escritores no funeral dessa mulher fora de pista que é Agustina, faltaram as escolas e a universidades, faltaram os políticos e faltou a Esquerda que recorrentemente reclama para si o monopólio da cultura. Faltou e, nessa ausência, mostrou a sua pequenez. Somos todos pequenos diante de Agustina. Mas, neste caso, a pequenez da Esquerda é de ADN diferente. É a mesma Esquerda que apontou o dedo à Direita quando um dos seus secretários de Estado vetou a obra de José Saramago. Vivemos num tempo sem espaço para a memória e para a coerência.

E talvez vivamos num tempo sem espaço para a exuberância do poder simbólico, cada vez mais escasso, cada vez mais urgente. Daí a hipocrisia do panteão. Querer levar Agustina para o panteão é como o pai que não tem tempo para dedicar ao filho e por isso decide comprar-lhe o brinquedo mais reluzente da montra. É inútil. Mais útil será levarmos todos a Agustina para casa. E, pelo meio, passarmos pelo Primavera Sound que arranca esta quinta-feira, por muita chuva que possa haver.

O Porto, disse Agustina, "não se explica, só mesmo por parábolas".

Bom fim de semana.