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Alert(a)

Poderíamos - apesar do verão, os dias têm sido férteis em noticiário internacional - abordar aqui a chegada da primeira mulher à presidência da Comissão Europeia, mãe de sete filhos, dona de uma imagem denegrida por ter ousado liderar uma pasta de homens, a da Defesa alemã. Chegou com a promessa de estender a presença feminina nas instituições europeias. E foi substituída por outra mulher no lugar que deixa vago. São boas notícias, independentemente da política.

Poderíamos falar aqui daquelas quatro outras mulheres, jovens que aceitaram levar a diferença a um Congresso dos Estados Unidos em tons de terno e gravata, jovens "de cor", ainda que brancas à exceção de uma, jovens sem papas na língua. O presidente delas, o educado Donald Trump, mandou-as regressar aos países de origem. Ora, o país de origem é os EUA, à exceção da única que não é branca e que é uma refugiada de um purgatório africano retratando o bom que pode ser acolher refugiados. Por elas o cinzento Congresso aprovou a simbólica condenação de Trump. Por racismo.

Poderíamos falar daquela outra mulher, alemã como as duas primeiras, mas a laborar precisamente na ajuda aos refugiados que Trump odeia, mas que o vice-primeiro-ministro italiano odeia mais ainda. Vai ser ouvida amanhã porque comandou um barco onde acolheu dezenas de pessoas como a congressista norte-americana e levou-as a um porto italiano contra tudo e contra todos. Uma jovem a que a alemã da Comissão dedicou parte do seu discurso perante os eurodeputados, ainda que sem nomeá-la, resumindo tudo a uma frase assertiva: "No mar, há o dever de salvar vidas". Porque elas vão continuar a desafiar o mar, porque o purgatório de onde vêm não está para melhorar, porque o mal que o mundo desenvolvido faz ao ambiente está a fazer desse purgatório um inferno.

Poderíamos, mas não. Vamos falar de Alert. É uma localidade que acolhe uma base militar permanente onde se determinou instalar uma estação meteorológica em 1950. Porque é longe de tudo, porque é o mais longe que se pode subir no mapa habitável deste planeta, porque 900 km acima é a curva para o outro lado, o Pólo Norte. Vivem em Alert 75 pessoas, destacadas por períodos curtos, porque ali é frio. Ou era. Alert deveria ser eleita como símbolo do dito mal que o mundo está a fazer a si próprio. É nos confins do Ártico. E registou estes dias 21 graus nos termómetros. Recordamos, a propósito, aquela magnífica capa da revista "Time" com o secretário-geral da ONU, o nosso António Guterres, de fato no mar das Fiji, com água pelos joelhos. O aquecimento está a ir mais depressa do que nós, avisou na altura. Ainda Alert era um local fresco.