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Berardos de pin's de barro

A cultura é tudo o que Joe Berardo não é. O comentário que Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, usou para rematar a prestação do comendador - que pode e deve deixar de o ser - na comissão parlamentar de inquérito à Caixa Geral de Depósitos (CGD) é tudo aquilo de que a cultura não precisa.

Não há melhor forma de evitar a proliferação de Berardos de pin's de barro na lapela do que aquela que nos conduz ao princípio contrário do que disse Ferro: "Não vi e não gostei". Não é obrigatório gostar mas é obrigatório consumir - consumir cultura, não comissões parlamentares de inquérito que até apontam o diagnóstico mas que paradoxalmente revelam nesse exercício a sua própria esterilidade (70% de abstenção daqui a 15 dias, teme Marcelo, sem espanto)). Só através da educação e, portanto, também da cultura, é possível perceber, até de olhos fechados, que a cultura não é ter, é ser; não é driblar, é enfrentar. Não é, portanto, acanalhar, é respeitar. Parece tão óbvio, não é?

A maior coleção de arte contemporânea pendurada na parede de casa ou na parede de um museu ou na parede de um país pode não dizer nada do colecionador ou da casa ou do país. A maioria das vezes não diz. Bem mais pode dizer um conjunto de espetáculos performativos que inscrevem a realidade de um país dentro de pouco mais de uma hora de palco. Não se coleciona na parede, guarda-se dentro.

Acabou de acontecer no Porto, com 19 dias de Festival Dias da Dança (DDD) em que foram apresentados quase 50 espetáculos que trouxeram o Brasil, a China, a Suécia, a Espanha, a França, e trouxeram os dilemas da maternidade no trabalho, da ditadura disfarçada de democracia, da discriminação na transexualidade, da fronteira da maldade, da solidão na contemporaneidade, da degradação da política. Em certo sentido, a quarta edição do DDD, comissariada por Tiago Guedes, deu a volta ao mundo de tudo o que nos inquieta hoje. "Não vi e não gostei", dirão tantos. Basta tentar não começar a frase na negação para ganhar outro valor. Um dia, vamos ter saudades disto.

Antes disso, prossegue agora a segunda parte deste momento histórico que atravessa o Porto, com mais dez dias seguidos com mais 30 espetáculos programados pelo FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). Gonçalo Amorim, que dirige o festival há cinco anos, volta a convocar uma reflexão sobre o Brasil, o Uruguai, o Chile, a Argentina, essa América Latina que está tão perto e tão longe. Basta ouvi-los e perceber como é diferente. "Balas, balas, balas." Não há peça que chegue do Brasil que não fale de tiroteio, de medo, de futuro suspenso. Já ontem, e hoje outra vez, há oportunidade de assistir a "Preto", de Marcio Abreu, obra sobre a necessidade de respeitar o outro na sua diferença. A peça que entra agora em digressão europeia, traz a Portugal, pela primeira vez, a atriz Renata Sorrah, que dá esta sexta-feira uma belíssima entrevista ao JN. "Não vi e não gostei." Contrarie a frase, que é fraca, consulte aqui e programa e vá. E venha.

E sim, há vida para lá do Porto e do teatro e da dança. Por isso, se está em Lisboa, não deixe de visitar a ARCO, que este tem ano tem mais de 70 galerias, seis das quais africanas. Se ainda está a ressacar com a participação portuguesa na Eurovisão da Canção, reveja a participação de Conan Osiris e reconcilie-se. Se achava que nunca mais ia ver os Rolling Stones ao vivio, saiba que Mick Jagger ameaça ter sete vidas como os gatos e volta em junho à estrada. Se onde gostava mesmo era de estar era em Cannes a acompanhar as novidades do cinema europeu, siga o festival todos os dias no JN. Faças as suas escolhas e vá e veja e leia, só nunca diga que não viu e não gostou. Não passe a si próprio esse atestado. Para isso, já basta o Berardo e os seus pés de barro.

Bom fim de semana.