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Como continuar a amar um artista detestável?

Como continuar a amar um artista detestável?

Não há resposta fácil a esta pergunta difícil e haverá tantas opiniões quantos artistas que produziram obra inquestionável e fizeram levantar questões sobre o seu comportamento. E não são poucos.

Mas o caso de Michael Jackson é particularmente chocante. A verdade é que não quisemos realmente acreditar que o "Rei da Pop", mesmo que sempre esquisito, sempre a fazer-nos duvidar da sua completa sanidade mental, pudesse realmente ter uma personalidade manipulativa e calculista, uma personagem vil que usou famílias para enganar meninos pequenos e levá-los, é preciso engolir em seco, para a sua cama. O homem que tudo teve (talento, fama, dinheiro e poder), o músico que deixou um legado musical praticamente sem rival na história da música popular norte-americana, o artista que teve uma carreira provavelmente irrepetível - os tempos agora são de fragmentação - era afinal um monstro.

E é assim mesmo, como "um monstro", que Dan Reed, autor de "Leaving Neverland" e que deu uma entrevista exclusiva ao JN, o caracteriza. O filme conta as histórias de Wade Robson, que diz ter sido sexualmente abusado por Michael Jackson durante sete anos seguidos, entre os 7 e os 14 anos de idade, e de Jimmy Safechuck, que se relacionou com o artista, incluindo sexualmente, dos 10 aos seus 14 anos.

O debate não é sobre a inocência de Jackson (há muitos que continuam a acreditar que Jackson é inocente) e sobre se se deve colocar uma discussão sobre um crime no plano da fé. Não deve. A questão aqui é saber se podemos continuar ter fé nos nossos artistas, nos artistas que amamos, mesmo que eles se revelem ser afinal detestáveis. Ou se podemos continuar a separar a obra do artista da sua verdade. Será a arte a verdade sobre o artista que a produz?

Riefenstahl e Einseinstein colaboraram com regimes abjetos e deixaram obra sublime. Woody Allen e Roman Polanksi são acusados de crimes e produziram cinema fundamental. David Foster Wallace abusou e perseguiu uma mulher e a sua obra na literatura é amplamente estudada. Não faltam exemplos, que aliás o movimento #meetoo destapou.

Voltamos ao início. Não é fácil uma resposta que resolva este conflito: queremos os nossos artistas eticamente puros e virtuosos em permanência, ou gostamos deles precisamente porque têm a coragem de recusar e quebrar códigos morais?

Suponho que dependa do artista e, especialmente, de cada apreciador. A arte é, antes de tudo, uma relação pessoal entre a obra e o seu admirador, um diálogo irracional e instintivo, que nos interpela por dentro e nos arrepia a pele. Não há nada tão poderoso quanta essa estranha emoção, que consegue derrotar a verdade mais evidente ou lançar a luz sobre o mais escuro dos cantos da natureza humana.

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