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Da pluralidade

"Todos os aspetos da condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente a condição (...) de toda a vida política". O pensamento é da filósofa Hannah Arendt, na sua "Condição Humana". Sempre presente na minha mente, tem-me acompanhado, em particular, ao longo desta semana. Rica em atos e omissões que mancham a democracia. Da qual os portugueses se parecem ter demitido. Ou não.

Porque, para mim, que voto, a responsabilidade máxima está, tem que estar, nos partidos políticos. Nos quais não acredito. Mas voto. Não abdico do meu direito. E dever. Mas no sufrágio do passado domingo sete em cada dez portugueses optaram por não acreditar e não votar. A espingarda foi-lhes apontada. Por não exercerem um direito conquistado com o sangue dos seus, nossos, antepassados. Os partidos, o partido, cantou vitória. Vitória do quê?

São estas vitórias cantadas que acentuam ainda mais o fosso existente entre os portugueses e os partidos. Não com a democracia. Mas com quem a representa. Esquecendo-se que essa mesma representatividade é sufragada. Por eles. Que não acreditam, nem votam. O abstencionista de domingo olha para os atos e omissões desta semana e, muito provavelmente, não se arrepende.

Atos e omissões de uma sociedade tolhida pelo despudor. Em que, no alto dos seus pedestais, desfilam, passivos ou ativos, alegados corruptos. Alegados tráficos de influência por algo que deveria ser conquistado com excelência. E enquanto se depara com esse desfile mórbido de desfaçatez, esse mesmo cidadão, dito comum, seja lá o que isso for, é confiscado em plena auto-estrada. Porque pagou uma qualquer taxa e taxinha fora do prazo. Não porque lesou a Pátria em milhares de milhões de euros. Não porque desonrou a Pátria ao corromper ou ao ser corrompido.

Esses abstencionistas, como me explicava na noite de domingo o politólogo António Costa Pinto, descrentes dos partidos, dos seus partidos, baixaram os braços. Em vez de se revoltarem no voto, optaram por não exercer esse direito. Mas que é também um dever. A questão está agora em saber como interpretarão, na prática, no dia-a-dia, os que cantaram a vitória de uma democracia anorética.

Olhar para o passado e aprender com os arquitetos da democracia seria um bom primeiro passo. E vem-me à memória o pensamento de Cícero que, na primeira de quatro Catilinárias, questionava, no Senado romano: "Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura?".