O Jogo ao Vivo

Coura

Devemos sempre regressar aos lugares onde fomos felizes

Devemos sempre regressar aos lugares onde fomos felizes

Devemos sempre voltar aos lugares onde fomos felizes e qualquer chavão que nos diga o contrário é puro engano.

Coura, vila situada algures entre a geografia minhota e um qualquer território mental, é o lugar onde voltaremos sempre. E é o lugar onde queremos que todos voltem. Na verdade, nunca se regressa bem a Coura, reencontramo-nos lá, é diferente. É como se o resto do tempo fosse apenas um ator secundário da vida. Pelo menos, da vida dos concertos. Não há outro lugar assim.

Os National voltaram esta quarta-feira, 14 anos depois da primeiríssima vez, foi naquele dia inesquecível em que o Vincent Gallo partilhou o número do quarto de hotel. Os Suede voltam amanhã, duas décadas depois de um concerto memorável, que coincidiu com a noite em que Steffi Graf, a "tenista do século XX", anunciou o fim da carreira. Os New Order aterram hoje. Não é um regresso a Coura, mas será seguramente feita História na 27ª edição do Vodafone Paredes de Coura. Não há outro festival assim.

A prova é o lotadíssimo concerto de ontem dos National, o 16º em Portugal. Como é possível que aquilo se tenha transformado numa homilia?

A magia de Matt Berninger

Matt Berninger tem sempre o coração amarrotado, a garganta arranhada, as entranhas desfeitas. Matt Berninger está sempre todo lixado. Nós absolutamente amamos Matt Berninger. Não é um silogismo, mas podia muito bem ser. E ele é assim desde o início.

Em 2008, recém editado "Boxer", superadíssima prova de fogo depois do trampolim que foi "Alligator" (2005), Matt chegou a Guimarães para um concerto que não era de festival nem de estádio. Um concerto de jardim, início de noite, lua cheia, famílias inteiras, crianças pela mão, tantos ao engano. Sobe ao palco já bêbado, cambaleia, tropeça, quase cai. Segura-se, equilibra-se na garrafa de vinho que nunca larga e no pé de microfone que qualquer mulher desejaria ser. Despeja insatisfação, angústia, caos, frustração, estilhaços de coração. Diz-nos que vivemos semiacordados num império falso (Fake Empire poderia ser hino mundial), que somos polidos pecadores, que facilmente os amigos se tornam (nos tornam?) perecíveis, que o amor desencontrado (ou perdido ou rompido, ou lá o que é que acontece ao amor quando nos trai o sonho e troca as voltas) enlouquece, que sentiremos falta da liberdade que fomos, que acabamos sempre a chorar.

Matt Berninger é um poço de problemas à espera de redenção, é itinerário terapêutico da catástrofe, é acrobacia temperamental a aprender a maturidade, é medo sanguíneo do que é bafiento, é uma espiral terrivelmente comovente. É uma revolução. E, em palco, era então apenas um embrião da explosão em que depois se tornaria.

Volta em 2010, maior. Ao Meco. Ah, se fosse possível ver um concerto de joelhos! Com ele trazia o ainda tenro "High Violet", promessa de felicidade, mesmo se tudo nele continuava tão pesado, aranhas e fantasmas incluídos. Contraditório e desesperado, como só a vida e o amor podem ser. "I'll try not to hurt anybody i like, but i don't have the drugs to sort it out". Pois, quem tiver a poção que a partilhe. Inaugurava ali a oração de apoteose com que passaria a acabar os concertos. "Vanderlyle Crybaby Geeks", esse arrepio contínuo que se alastra aos músculos, ordenando-nos de cor em coro, cúmplices e condenados: "All the very best of us string ourselves up for love", voltou a fechar o concerto de ontem.

O alinhamento era, e continua a ser, simbiose perfeita entre passado - todos os hits a que temos direito, Mr. November é via verde para outro mundo; aquele glorioso "About Today", marcha lenta em se ouve repetidamente a pergunta: quão perto estou de te perder? - e presente: You Had Your Soul With You e Light Years a parecer que fazem parte da nossa vida desde sempre. Matt, incurável sofredor, podia ser fadista. É um amplificador de apocalipse, um miserabilista contagioso, é um trágico gigante. Não há banho de multidão que não seja merecido.

Em 2011 foi ano de coliseus, Porto e Lisboa. E dessa prece inacreditável que inexplicavelmente não figura em qualquer disco, e que é provavelmente uma das canções mais bonitas e desarmantes alguma vez escritas, "Think You Can Wait". Cândido desejo de espera, mesmo se não invalida a forte probabilidade de nunca conseguirmos vir a ser melhores. Sim, Matt Berninger é uma epifania e um sismo. É uma espada cravada no peito e um despenhamento que é bizarro porque é assustadoramente belo. Não o ouvimos para sentirmos que podemos ser salvos, ouvimo-lo para fustigarmos o delírio de qualquer esperança. Mas dançamos loucamente nesse prelúdio de desgraça. É quase sinistro. E simples. Gente de carne e osso que falha e avaria quando a carne dói e os ossos quebram. E ele canta sobre isso. Ele é isso. Matt Berninger faz magia com a dor. Simples?

Os dois anos que se seguiram foram uma eternidade. Canções libertadas a conta-gotas, um sexto disco que nunca mais chegava. Quando finalmente chegou (Trouble Will Find Me, 2013), trouxe Pink Rabbits, e só isso fez valer a espera. Mas o disco não tinha só essa "versão televisiva de coração partido", são 13 canções, todas a arder, e mais uma que não está lá e deveria - Lean, outra prece indescritível. Teve crítica ambígua, muita gente farta das lamúrias de Matt. Paciência. Matt gosta de tempestades, mas não gosta de relâmpagos. Nesse disco até parece que alguma tempestade passara - "When they ask what do I see, i see a bright white beautiful heaven hanging over me -, mas o nome do álbum, Trouble Will Find Me, antecipava que era fase provisória. É infalível, ele nunca escreverá sobre a felicidade, escreverá sempre só sobre o momento em que a felicidade desaparece. No fim acabamos sempre a chorar. "If you lose me, i'm gonna die".

Depois houve Sleep Well Beast (2017), que nos deu a "Guilty Party" e o outro hino da banda "Day I Die", que ontem ergueu o recinti de Coura em refrão. E, já este ano, um contraditório, arriscado e belo "I Am Easy To Find", escrito a meias com a mulher e cheio de vezes femininas convidadas.

Ao longo destes 14 anos, houve vários concertos no Sudoeste e no Alive, um mítico na Aula Magna em Lisboa, em 2008, outro fortíssimo no Coliseu de Lisboa, há dois anos, outro no Primavera Sound, e mais uns quantos. Então, que raio aconteceu ontem?

Não é preconceito, mas não é indiferente o cenário em que se vê um concerto. Em 2005, Matt Berninger não era ainda Matt Berninger - era o vocalista dos National. Estreou-se em Portugal a partir de Coura, naquilo que deveria ter sido, como sempre é naquela colina mágica do Taboão, o início instantâneo de um caminho sem volta. Hoje Matt Berninger é um conto de terror infantil para adultos. É a banda sonora das nossas vidas, onde nos sepultamos e ressuscitamos sem nunca sabermos em qual das duas fases vamos estacionar definitivamente. Sem pudor, com todo o exagero que justifica a vida e o sangue que nela corre, o concerto de Matt Berninger não é para gente equilibrada, que sabe relativizar os desgostos e avançar impermeável à dor, é para gente exagerada que faz de qualquer ferida uma melodramática hipérbole sem porta de saída. Seja qual for o alinhamento ou as vezes em que ele vai desafinar, e ontem foram muitas, Matt Berninger cantará sempre o best of dos nossos desastres.

Bom fim de semana.