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"Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão"

"Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão"

Nada tenho contra os "geeks", até porque eles finalmente ganharam. Mark Zuckerberg controla o Facebook, o Instagram e o WhatsApp. Os inventores da Google, a Microsoft ou da Amazon controlam praticamente tudo o resto. E a obsessão dos fãs de "A Guerra dos tronos", dos filmes da Marvel e DC Comics e do "Star Wars", que se digladiam até ao último (e inútil) detalhe sobre as (falsas) vidas dos seus (irrelevantes) personagens, decidem coletivamente o futuro da cultura popular.

Nos anos 90, Bill Gates, o primeiro "geek" cool, era exemplar único no imaginário coletivo. Todos os outros eram desgraçadas personagens em maus filmes sobre a experiência escolar - em modo "quero ser popular" ou em modo "comic relief".

Quem, nesse tempo, poderia imaginar que uma série baseada nas histórias de fantasia de George RR Martin viria a ser uma das mais populares da história da TV (e a mais pirateada de sempre), a ponto de dominar a conversa em todo o lado, a cada episódio, com direito a artigos exaustivos até nas mais vetustas e impenetráveis publicações mundiais? Ou que Tolkien daria origem a seis filmes (as trilogias "Senhor dos Anéis" e "Hobbit") de sucesso gigantesco? Ou que "A teoria do Big Bang", uma "sitcom" sobre quatro "geeks", se tornaria numa das mais vistas em todo o Mundo? E quem se atreveria a dizer que uma saga sobre super-heróis com 22 filmes (22!) de banda desenhada dominaria de tal forma as bilheteiras? Só o epílogo rendeu, logo no primeiro fim de semana, mil milhões de euros (mil milhões!!!)!

Não pode ser coincidência cósmica que em 2019 esteja a acontecer, em simultâneo, o épico culminar de todos estes eventos da cultura pop atual. Como lembrou o "Guardian", os "Vingadores" já revelaram o seu final, a "Guerra dos tronos" está a três episódios do fim, "A teoria do Big Bang" explode definitivamente no final de maio e "Star Wars" acaba, em dezembro, mais uma trilogia. Tudo isto é produto de uma viragem, mais uma, provocada pela Internet e as redes sociais. Palco de acesso horizontal para todos, o que é bom, palco excelente para a discussão altamente polarizada, o que é ótimo para os fãs mais afoitos.

Acontece que na última década os dois fenómenos - as redes e os obcecados - alimentaram-se mutuamente e foram seguindo, em crescendo, até que transformaram definitivamente a perceção geral sobre quem sabe dizer umas frases em "dothraki" ou onde estava o "tesseract" em 2012 (não está a perceber? Vá ao Google). Se não mudaram a perceção, pelo menos deram-lhes um poder importante. O de definir para onde e para o quê vai o principal dinheiro investido neste tipo de criação cultural. A Marvel já tem alinhavados filmes para a próxima década. A HBO avalia "spin offs" da "Guerra dos Tronos". A Amazon vai investir centenas de milhões numa adaptação para TV do "Senhor dos Anéis".

Não sei se exagero, se não terá sido sempre assim, de uma forma ou de outra. A cultura popular sempre dominou as conversas sobre as Artes, sempre influenciou o fluxo do dinheiro, sempre dominou as decisões sobre quem faz o quê e de que maneira. Pronto, reconheço que existem vantagens na evasão fácil, no entretenimento descartável que nos faz esquecer as inquietações, por um breve instante. E que nem tudo está mal em 2019: ao menos o Tarantino e o Abdellatif Kechiche juntam-se a Cannes; e o Dias da Dança, que o JN está acompanhar de perto, continua a movimentar milhares de pessoas no Porto.

Mas houve um tempo em que as duas coisas se misturavam mais vezes, o popular e o erudito. Dias em que a reflexão era o escape, em que a interpelação nos ia salvando. O neo-realismo italiano e a "nouvelle vague" francesa enchiam as salas de cinema. O David Bowie era louco e era o maior. O Picasso era famoso e genial.

Enfim, o Mundo muda. "Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão", como notou o Pina, embora esta discussão nunca vá interromper-se, por muito antiga que seja. Mas o poeta acrescentou também, muito sabiamente: "O café agora é um banco, tu professora do liceu; / Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu."