O Jogo ao Vivo

Newsletter Editorial

Nos reinos dos desconhecidos

Nos reinos dos desconhecidos

Escolhemos ilustrar a nossa edição de amanhã do Jornal de Notícias com uma imagem de Boris Johnson, o novo primeiro-ministro conservador do Reino Unido, de costa, a entrar no famoso n.º 10 de Downing Street. Visto assim, parece-se demasiado com o presidente dos EUA, Donald Trump, mas não foi esse o motivo da escolha. Optámos pelas costas do irreverente político de 55 anos porque o que se espera, daqui para a frente, é o absoluto desconhecido.

Depois de ontem ter sido eleito por 92 mil dos menos de 150 mil militantes conservadores como líder Tory, o ex-jornalista, ex-deputado e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, definiu claramente três linhas programáticas: unir o Reino Unido, cumprir o Brexit e derrotar o líder da oposição trabalhista, Jeremy Corbyn. Ontem, depois de se ajoelhar perante Isabel II e depois de a antecessora, Theresa May, se ter apresentado ao país de fato azul-Europa, Johnson insistiu no segundo. O Brexit que ele provocou, com bastas mentiras e a forte ajuda o eurocético Nigel Farage, aquando da campanha para o referendo de 2016 sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, vai acontecer até à data imposta por Bruxelas - 31 de outubro próximo. E vai ser com acordo, garante, um acordo muito melhor do que a antecessora conseguira negociar e com livre comércio e uma data de linhas vermelhas que a Europa tem vindo a dizer que não atravessaria. Bruxelas respondeu-lhe logo, não há renegociação, só se for da declaração política sobre relações futuras, um texto redondo e nada concreto. Mas, para o erudito que faz do humor e do ridículo armas políticas, essa é apenas uma remota hipótese. O mais certo é o Brexit continuar a ser o caos que tem sido, com um Parlamento apostado em sair ordeiramente e um Governo, agora, constituído de fervorosos eurocéticos, incluindo o homem que não conseguiu sobreviver como negociador chefe, Dominic Raab. Será chefe da diplomacia. O Trump europeu? Talvez não. Dizem os analistas que este é uma mente brilhante. E se assim for, vai perceber que forçar uma situação insustentável vai conduzir a eleições antecipadas e à derrocada final do seu Partido Conservador, cujo eleitorado foi canibalizado pelo Partido do Brexit de Farage. Sobra que Johnson promete manter os direitos dos 3,3 milhões de cidadãos europeus que vivem no Reino Unido. E que se preocupa com o bem-estar animal. A prazo alguém há de perguntar ao gato Larry se se prova.

Ainda que vistos da lateral na outra imagem que selecionámos para o papel, os dois políticos que se enfrentam como gladiadores na definição daquilo que deve ser a futura amizade deles ofereciam pouco mais do que o desconhecido das costas de Johnson. São o socialista espanhol Pedro Sánchez, em passe de ser - ou não - reconduzido na presidência do Governo, e o líder da formação Unidas Podemos, que muita imprensa espanhol encaixa na esquerda radical, Pablo Iglesias. Têm nas mãos o futuro governo espanhol, que pode ser uma coligação, ou a incerteza de mais umas eleições gerais num país que começa a só saber viver na corda bamba: a acontecer, serão as quartas em quatro anos. Com um perigo para que um deputado nacionalista basco alertou anteontem sem papas na língua: querem continuar a espumar de raiva na arena da mesquinhez dos interesses e deixar que a extrema-direita chegue ao Governo de Espanha, ou preferem sentar-se e olhar-se como adultos, pensando nos milhões de cidadãos que neles votaram para afastar esse fantasma? A esta hora, não foram capazes de responder. Ou melhor, responderam rompendo a conversa. Amanhã ficaremos a saber o que vale mais. A votação arranca às nossas 13.45.