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O desespero e a política

Já era público, no início de julho, que existem em Portugal nove crianças com Atrofia Muscular Espinhal tipo 1. Perante o mediatismo da bebé Matilde, a mais jovem doente que necessitava de um medicamento inovador e ainda por autorizar no país, o presidente da Associação Portuguesa de Neuromusculares assegurou que, desbloqueado o tratamento com uma Autorização de Utilização Excecional, seriam avaliadas todas as crianças que dele necessitam.

Ninguém tem dúvidas que foi graças à enorme onda de solidariedade dos portugueses, que, em pouco tempo, doaram mais de dois milhões de euros para pagar o medicamento da Matilde, que a vergonha pública desbloqueou todas as burocracias e impedimentos para que a doente fosse tratada.

Depois de Matilde, já Natália conseguiu o mesmo tratamento, mas a mãe de Noa desespera por respostas que permitam tratar a filha de um ano. "A Noa, o Afonso, o João, o Simão e a Janat, que ainda não tive a oportunidade de conhecer, todos eles são igualmente importantes, e merecem ter a mesma oportunidade e o mesmo tratamento", desabafa a mãe, angustiada com a falta de respostas do hospital onde Noa é seguida, levantando suspeitas sobre a iniciativa da instituição no que se refere ao tratamento da filha.

Nas caixas de comentários, desenham-se cenários de aproveitamento político da história de Matilde, cuja história comoveu o país mesmo antes do início da grande debandada de férias de verão. Agosto foi mês de acalmia e em setembro prepara-se a campanha para as legislativas, sugere o leitor anónimo. Os pais de Matilde são pressionados a devolver donativos, porque há quem entenda que não devem decidir que crianças merecem ou precisam ou devem receber ajuda. Enquanto tentam salvar a vida da filha, já ajudaram pelo menos 16 crianças em situação crítica e tiveram de dar explicações públicas sobre a devolução do dinheiro.

Pessoalmente, gostava que os portugueses fossem tão solidários, exigentes com a gestão pública e sérios como o caso de Matilde leva a crer. Quando há quem acredite que o dinheiro pode distrair quem tenta salvar um filho, quem vote em quem "roubou mas fez obra" (como diziam de Isaltino, que venceu eleições na cadeia) e quem vire a cara às evidências de corrupção de alto nível que vão surgindo, temo que a seleção natural já não seja feita, como argumentava Darwin, pela lei do mais forte, mas pela taxa de mediatismo do momento.