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O fogo no "Pinheiro" do avô António

O fogo no "Pinheiro" do avô António

Foi nos primeiros anos da década de 1980. Não sei ao certo qual. Mas era um dia de verão, de canícula. Pela hora da sesta, no alto da serra da minha aldeia levantou-se uma coluna de fumo negro e espesso. O céu não tardou a deixar de ser azul. O meu avô António tinha para lá, no "Pinheiro", umas terras que davam batatas e cereal, e ainda um pinhal. Avisado pela avó Prudência não perdeu tempo a sair da cama e a vestir-se. Foi à loja, agarrou uma enxada daquelas avantajadas, as de arrancar batatas, e pôs-se a caminho. Eu quis ir. "Ó rapaz, olha que aquilo é feio, não vais nada!", avisou. Mas eu, miúdo pouco entrado ainda na segunda década de vida, insisti. Custou, mas anuiu. Levei outra enxada.

O avô António era baixo, mas enérgico. Passo ligeiro, difícil de acompanhar durante os vinte minutos a pé, quanto mais próximo, mais grossa a coluna de fumo. E mais assustadora. A passarada a fugir, o crepitar das labaredas cada vez mais audível... De repente, senti medo. Tive vontade de voltar para trás. Mas, que raio, não ia agora dar parte de fraco. Ainda por cima ao meu avô. Eu que até já era mais alto que ele!

Começou a surgir gente de todo o lado, a aldeia em peso e de outras perto. O povo unia-se, defendia o que era dele. Nem me lembro se havia bombeiros. A luta foi dura. Depois de se estar lá, já não tremiam as pernas. Com enxadas ou outras ferramentas, com giestas a bater nas chamas, com truques de quem conhecia o terreno como as mãos, o incêndio lá se controlou e apagou. Durou umas horas largas, mas apagou. No regresso, senti-me um homem. Não me lembro de o avô António ter dito algo. Talvez o tenha feito. Para dentro. Não era homem dado a elogios.

Quem ao longe vê um incêndio na floresta, não imagina o que é estar lá perto. Ou estar dentro. Os de agora são muitos mais. Bem mais violentos e desastrosos. Também porque já não há Antónios para os ajudar a deter. O inferno sobra para milhares de bombeiros e outros operacionais. Todos os verões, invariavelmente, parece que anda o diabo à solta. Cansa. Muito. Sobram perguntas, apesar de tantas respostas.

O incêndio que deflagrou no sábado em Vila de Rei, distrito de Castelo Branco, e que se propagou ao concelho de Mação, já em Santarém, foi dominado esta terça-feira. Pelo meio, dezenas de pessoas feridas, casas e anexos, viaturas e alfaias agrícolas destruídas. E já ardeu o equivalente à área de Lisboa.

À hora em que escrevo ainda permaneciam naquele distrito mais de 1200 operacionais, com o apoio de quase 400 viaturas e seis meios aéreos envolvidos no combate a 14 incêndios. Mas em todo o território continental eram quase dois mil homens e mulheres, cerca de 600 veículos e 16 avionetas e helicópteros.

A procissão ainda vai no adro. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil está a alertar a população para o agravamento do risco de incêndio rural, esta quarta e quinta-feira, devido à subida da temperatura. E de novo, muita gente com o coração nas mãos.

Coração não falta aos resistentes das seis frações do prédio Coutinho que continuam na luta para não abandonar, em Viana do Castelo. No entanto, como conta a Ana Peixoto Fernandes, a sociedade VianaPolis chegou a acordo com um dos proprietários que não viviam no prédio e cujos apartamentos foram selados.

A paz tarda em chegar ao Coutinho, como demora o calor do verão a chegar a Viana. Calor que noutros pontos do território não é só favorável à propagação de incêndios florestais. Também propaga apetites por banhos, muitas vezes em locais idílicos. "Piscinas naturais" de águas límpidas e frescas, como as do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Mas nem sempre corre tudo bem. A Sandra Borges deu, esta tarde, a notícia de uma jovem de 18 anos que morreu afogada nas Sete Lagoas, freguesia de Cabril, em Montalegre.

Por explicar está ainda a mortandade de milhares de peixes que deram à costa na Praia da Fonte da Telha, em Almada, surpreendendo os banhistas. O Rogério Matos explica que já ocorreram outros casos originados pelo rompimento das redes das embarcações de pesca que capturam sardinha ao largo da Costa da Caparica.

Mas não foram sardinhas mortas que interditaram a banhos e a desportos náuticos a praia do Navio, em Santa Cruz, no concelho de Torres Vedras. Foi o aparecimento de destroços de um navio que ali se afundou há quase um século.

"Inda mais oitra!", diria o avô António.