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O tempo dos David contra os Golias

O tempo dos David contra os Golias

Por muito que o sindicalismo estabelecido garanta que nada de substância mudou, o último ano abriu a porta a que algumas classes profissionais se imponham, com formas de organização e de financiamento impensáveis há bem poucos anos. E fazem-no dentro de estruturas sindicais. Ainda.

A regra não é generalizável, até porque poucas serão as profissões capazes de deixar o país perto do abismo em apenas três dias. Mas o que os camionistas de materiais perigosos mostraram, esta semana, foi uma lição que deve ser aprendida, por quatro entidades.

Primeiro, pelas estruturas sindicais tradicionais, que não os souberam representar, levando-os a criar um sindicato novo e independente das duas grandes centrais. Segundo, pelas entidades patronais, que deverão evitar o erro da Antram e não desvalorizar movimentos que, mesmo que pequenos, podem ter enormes impactos sociais. Terceiro, pelo Governo, porque mesmo quando se trata de empresas e trabalhadores do setor privado, é para a mão pública que a sociedade se vira em momentos de privação. Quarto, pela comunicação social que só se apercebeu do que estava a acontecer quando já os combustíveis rareavam nas bombas.

Só no ano passado, quatro histórias mostram esta evolução. Nos professores, um novo sindicato, o STOP, iniciou uma greve às reuniões de avaliação tão cirúrgica quanto a dos enfermeiros, promovida também à margem do grande sindicato do setor. Estas foram duas greves na Administração Pública, mas no privado o cenário repetiu-se. Nos portos, o Sindicato Nacional dos Estivadores e da Atividade Logística parou o Porto e Setúbal e travou a saída de milhares de carros da Autoeuropa, levando inclusive a uma intervenção da Alemanha.

Argumenta-se que todos estes protestos foram organizados por trabalhadores integrados em sindicatos, sejam recentes ou antigos, filiados numa central sindical ou independentes. E que todos recorreram à greve para ter ganhos laborais e não para desestabilizar o país, causar alarme social, ter impacto político.

Mas estes exemplos mostram que formas de organização alternativas podem ter mais impacto com menos custos do que uma adesão massiva à greve (basta um professor faltar para travar reuniões de avaliação de alunos, pelo menos até o Governo mudar as regras). Ou que há formas de financiar uma paralisação que não penalizam os grevistas pelos dias de trabalho perdido, na prática possibilitando que uma greve se prolongue. Foi o caso das coletas - privadas no caso dos professores ou públicas no caso dos enfermeiros -, numa lógica bem diferente dos fundos de greve que os sindicatos podem ter (mas não têm). Ou que há classes profissionais de tal forma descontentes com as condições de trabalho que um sindicato quase a estrear consegue uma adesão total, como os motoristas.

Serão quatro exemplos, mas todos aconteceram em pouco mais de um ano. E no mundo das redes sociais e de movimentos subterrâneos de identificação, não é de esperar que sejam fenómenos isolados. A realidade tem desmentido quem vaticina a morte do sindicalismo tradicional, mas não é bem avisado pensar que nada mudou. Basta ver as manchetes desta semana.