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"...porque a minha mãe teve uma amiga que morreu no mar"

"...porque a minha mãe teve uma amiga que morreu no mar"

Desde pequena que brindo quem está comigo na praia com o alerta "entra com calma na água". E se a pessoa barafusta, é certo e sabido que eu acrescento sempre "porque que a minha mãe teve uma amiga que morreu no mar". Não há verão que não repita o triste episódio. Faço-o mais do que uma vez por época. É que teve mesmo. A minha mãe, em jovem, teve uma amiga que entrou em paragem cardiorrespiratória, ao mergulhar no mar gelado depois de horas seguidas de exposição solar. Alertar para os múltiplos perigos do mar (e dos rios, riachos e afins) nunca me parece excessivo. Muito menos em dias como hoje.

Talvez por ter ouvido o alerta de mãe vezes sem conta, desde miúda, sempre olhei para as zonas de banhos com um misto de admiração e de receio. Sou aquela pessoa que se molha toda aos poucos, antes de mergulhar, mesmo que isso não fique bem nas fotografias à beira da água. Sou aquela que quase só mergulha quando está bandeira verde. E que, mesmo assim, não se aventura muito para zonas onde os pés não toquem no chão. Tenho em mim que se as coisas acontecem quando há cuidado, mais depressa ainda acontecerão quando não há. A água, todos os anos, principalmente no verão, leva-nos gente. Demasiada.

Ainda hoje, um homem morreu afogado numa represa, em Castelo Branco. Por Vila Nova de Cerveira, no rio Minho, continuam as buscas pelo triatleta, de 23 anos, desaparecido desde anteontem, quando participava numa prova de triatlo. E, ontem, foi encontrado um corpo numa praia não vigiada de Viana do Castelo, a sul da praia Norte. Isto numa semana em que também noticiámos o afogamento de um jovem de 15 anos, que, no domingo, foi tomar banho com os amigos, no rio Tora, em Arcos de Valdevez, e desapareceu. A boa notícia, nesta área, só nos chegou dos Açores, onde um homem que estava desaparecido no mar, desde ontem, foi encontrado hoje com vida.

O verão é, para muitos (eu incluída), das melhores épocas do ano. É quando os dias são mais longos e mais felizes, quando se partilha conversas e gelados à beira-mar e se chega a casa de corpo cheio de sal, sol e tranquilidade. Mas no verão há um número elevado de afogamentos. E no verão há mais incêndios. E isso pinta de negro uma época em que o sol brilha mais do que no resto do ano. Assim, graças ao calor que se faz sentir por estes dias, o Norte e o Centro estão com alerta vermelho devido a risco de incêndio.

Todo o cuidado é pouco; uma frase batida, com um o conselho certeiro. E as notícias que damos, diariamente, quando muitas vezes somos acusados de só querer noticiar desgraças (como se alguém o quisesse mesmo), também têm como propósito servir de alerta. É por isso que eu não me canso de dizer "entra com calma na água, porque a minha mãe teve uma amiga que morreu no mar". Chamem-me chata.