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Televisão irrestível e cruel

Televisão irrestível e cruel

Por diversas razões, tenho ultimamente centrado algum do meu tempo de lazer em séries de televisão. A salas de cinema têm-se enchido de enchidos, com algumas exceções - "não perca a reposição de "Os senhores da guerra" do Kurosawa -, e a sala de casa é, muitas vezes, demasiado irresistível. Com boas razões.

A oferta televisiva, principalmente a do streaming, é vigorosa, embora muitas vezes dececionante. A quantidade é imensa, passamos por programas como se não fosse nada, excitamo-nos com uma história tão rapidamente como a abandonamos. É o custo da abundância digital: a quantidade baixa a perceção de valor. Não compramos um disco, compramos o acesso a um sem fim de músicas. Não temos a sensação de que investimos, deixamos de investir logo que as sensações deixam de nos entusiasmar. Muitas vezes com justiça.

Ora isso não é bom nem é mau, é só diferente. Eu prefiro ter à minha disposição todas as músicas, filmes e séries do Mundo, sempre que me apetecer. Isso não me impede de comprar um disco ou ir ao cinema. Convenhamos, todavia, que nos suga boa parte da nossa atenção.

Ora isso nem sempre é bom, nem é mau sempre. Se for para ver séries como "A Casa de Papel", que tem uma premissa original mas uma execução bastante previsível e aborrecida (lamento, não gostei mesmo), não é muito agradável. Se for para ver "Peaky Blinders" ou "Euphoria", é realmente excelente.

A trama, a fotografia, os atores, as personagens e a banda sonora. "Peaky Blinders" está na Netflix e é televisão na sua forma mais sublime. O meu único lamento foi apenas ter chegado há umas semanas à vida desta família de criminosos ingleses, assolados pelos traumas da I Guerra e motivados pela luta brutal para chegar ao trono das máfias de Birmingham e Londres. Tudo em "Peaky Blinders" é recomendável, na sua exuberância contida. O enredo vai sendo construído com paciência e envolvimento. A violência (isto é uma história de gangues sociopatas, apesar de contas) é credível e bem medida. As personagens são humanas, execráveis ( Solomon, do sempre incrível Tom Hardy, é bastante detestável e surpreendentemente certeiro) e nobres (Thomas Shelby, o chefe da família, toma decisões horríveis e ainda assim torcemos por ele).

"Euphoria", da HBO, é outro exemplo de produção televisiva que não faz compromissos. É chocante e não é certamente porque abunda a nudez masculina e feminina. Pénis e seios são a menor das preocupações para quem olha para este série, especialmente para os pais de futuros e atuais adolescentes. Concedo que é uma concentração abusiva de tudo o que de mau está ao dispor dos jovens (na mesma cidade existe um personagem que representa cada um dos estereotipos). Mas a verdade é que tudo o que existe de mau está realmente ao dispor dos miúdos: a droga, a pornografia, a coação, a violência psicológica, o abuso físico, as novas fragilidades digitais, a exploração e exposição via internet e redes sociais.

Imagine a crueldade, a arrogância, a insolência e a insegurança adolescentes e junte-lhes todas as ferramentas para as executar livremente, ao arrepio dos pais e de todo e qualquer bom senso. Veja "Euphoria" e informe-se sobre a vida dos seus filhos. E sobre tudo o que eles têm de enfrentar para sobreviver na agressiva selva social para onde os atiramos diariamente.