O Jogo ao Vivo

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Os dias que antecederam a cimeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte não auguravam nada de bom.

Sabíamos que o impulsivo presidente dos Estados Unidos iria cobrar aquilo a que tinha, admitamos, direito - uma maior contribuição dos restantes 28 Estados-membros, a maioria deles ainda muito longe dos 2% do PIB alocados à defesa definidos em 2014, ao contrário de Washington, que lhe reserva 3,58%. Bom, na verdade, tinha apenas algum direito. O compromisso era chegar aos ditos 2% até 2024. Donald Trump avisara claramente: ia pedir contas à NATO, essa obsolescência que denuncia desde a campanha que o levou à Casa Branca. Tão obsoleta que "Mr. President" chegou a Bruxelas com voo de ligação para Helsínquia, onde segunda-feira se encontrará com o presidente da Rússia. A Rússia que a NATO tem tentado travar estacionando dissuasão por essa Europa de leste fora.

Pois bem, Donald Trump não se limitou às previsões. Chegou, acusou a Alemanha de vergar-se à Rússia em nome do fornecimento de gás, cumprimentou a chanceler Angela Merkel, disse ter uma excelente relação com a líder alemã (que é das que menos contribui para a NATO, já agora) e pediu a todos que invistam na defesa não 2%, mas 4% do PIB. Vindo de um país que tem no armamento uma das maiores indústrias, não soa muito bem. Não obstante, a reunião foi considerada consensual pelo secretário-geral da organização, um Jens Stoltenberg que parece preferir assobiar para o lado. Ou, acatar a sugestão do primeiro-ministro português, António Costa (que até quer gastar mais em defesa), "não temos nada a ganhar em transformar esta cimeira num jogo de Ping-Pong" nem "valorizar especialmente a idiossincrasia de uns ou de outros". Em bom português, não vale a pena acirrar a besta antes de ela se ir vingar a Helsínquia e, assim como assim, estamos (quase) todos a aumentar as contribuições bélicas.

O belicismo - do conclave e do tema - é o oposto daquilo que o mundo mostrou ser capaz, ao longo das duas últimas semanas, na selva perdida do norte da Tailândia. A imagem de crianças sorridentes a acenar de uma cama de hospital, em agradecimento, basta para encher os mais crédulos de esperança. Doze rapazes e o seu treinador, parte deles "crianças sem Estado", refugiados sem direitos fugidos de uma vizinhança insana, foram salvos de uma gruta inundada após 18 dias de cativeiro por uma equipa internacional, comandada por tailandeses, numa operação julgada impossível testemunhada em pessoa pelo primeiro-ministro de um Governo militar pouco dado a humanismos. O herói de Tham Luang Nang Non foi o sentimento de solidariedade. O mundo sabe ser tão bonito.

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