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Welcome to Crazytown

"Estamos numa cidade de loucos". A frase atribuída a John Kelly, chefe de gabinete do presidente dos EUA, Donald Trump, remete para a Casa Branca.

É talvez a mais retida do novo livro do guru da investigação jornalística norte-americana, Bob Woodward. Esse mesmo que, com Carl Bernstein, fez cair um presidente republicano, em 1974, dois anos depois de revelado o escândalo Watergate, um assalto encomendado pela Casa branca à sede do Partido Democrata em Washington, em plena campanha presidencial de 1972. O republicano Richard Nixon, reeleito, garantiu nunca ter mentido. Caiu.

Em "Medo, Donald Trump na Casa Branca", o registo é, infelizmente, mais humorístico. Kelly terá dito que não sabia o que estava a fazer na Casa Branca e que aquele é o pior trabalho que teve. Desmentiu, claro. Woodward baseou o texto em centenas de horas de entrevistas com colaboradores da Casa Branca. Despeitados, segundo a porta-voz de Trump, Sarah Sanders. Mentirosos, segundo Trump. Porque é impossível escrever um livro sobre um pessoa que "é oposto" do que é descrito. Trump, como Nixon, garante que não é nada do que escreve Woodward. Que não tem o QI de um miúdo de 10 anos, que não quis matar o presidente sírio, que sabe dos documentos que assine, etc, etc. A ver vamos. Se contarmos dois anos a partir daqui, calhamos nas próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos.

Lamentavelmente, a frase do livro de Woodward não cabe só Casa Branca. Não num mundo que, num só dia, nos oferece a notícia de venezuelanos fugidos de uma grave crise económica para morrer de frio na travessia dos Andes a pé, da Colômbia para o Peru. Que nos oferece a reação de Caracas, acusando Bogotá de não proteger os migrantes venezuelanos...

Um mundo que nos oferece a notícia da cada vez mais provável intervenção da Rússia em assassínios encomendados em países terceiros, a Rússia que nega sempre e que tem um presidente agora tornado estrela de televisão, com um programa dominical que conta a semana de um Putin atlético, amante da natureza e amigo das crianças.

Um mundo que nos oferece a notícia do avanço - mais um - da extrema-direita num país, a Suécia, da Europa que julgávamos assente em princípios de solidariedade. Poderíamos seguir por aí adiante, infinitamente, a correr as agências noticiosas.

Poderíamos falar das mulheres da Mauritânia que não denunciam violações porque, se não provarem que foram tomadas à força serão presas por praticar sexo fora casamento. Poderíamos falar dos 173 beduínos palestinianos que vivem há séculos na região de Khan al-Ahmar, a aldeia de casas de chapa que vai ser demolida por Israel por ser "ilegal", apesar de estar num território que a lei internacional reconhece como palestiniano, apesar de depender de Israel para ter licenças de construção de casas normais, de cimento e ferro, apesar de todo o universo se ter virado contra Israel neste drama particular. Poderíamos falar do Paraguai, que foi a correr atrás dos EUA e mudou a embaixada em Israel para Jerusalém e agora, do nada, voltou atrás. Poderíamos, inclusive, falar de outro país, Portugal, pendurado na vida íntima do futebol enquanto lá fora o mundo enlouquece.

Poderíamos. Mas seria demasiado exaustivo. Vamos concentrar-nos no dito livro. É lançado a 11 de setembro, 17 anos depois dos atentados em Nova Iorque, que transformaram o mundo numa espécie de cidade de loucos.

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