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"Massacre", "ato vil", "inaceitável"

"Massacre", "ato vil", "inaceitável"

Num ano atípico, onde o melhor e o pior do ser humano veio à tona, chega-se quase ao final de dezembro com uma notícia que pode espelhar bem o lado mais cruel do Homem. O abate de 540 veados e javalis na Quinta da Torre Bela, em Aveiras de Cima, na Azambuja, está a causar indignação de norte a sul. Resta a questão: como não causar?

É bom que o número se repita até à exaustão. Não para chocar, mas sim para que se perceba a magnitude. Foram 540 os animais abatidos, numa montaria - quem não souber do que se trata, pode ver aqui - realizada no fim de semana. 540. As imagens chegaram a público, como quase tudo hoje em dia nos chega, pelas redes sociais. Veados e javalis, mortos, jazem no chão, minuciosamente alinhados e bem juntinhos, para parecerem ainda mais (como se já não fossem demasiados). Os únicos que se mantêm firmes, de pé, são humanos. Homens e mulheres. Sorridentes. Aparentemente satisfeitos e felizes com a "façanha". A partir daí, as vozes contra, muitas, fizeram-se ouvir.

Uma possível justificação para o que muitos apelidam de "massacre" foi dada, entretanto, pela Federação Portuguesa de Caça (FENCAÇA), que repudia o abate. E trata-se de uma explicação que levanta ainda mais indignação: os animais terão sido abatidos para que no local seja construída uma central fotovoltaica. A população local também já se mostrou revoltada com o sucedido. E o Governo, por meio do ministro do Ambiente, também. João Matos Fernandes considerou o ato "vil" e "inaceitável", tendo anunciado que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas vai revogar a licença de caça da Quinta da Torre Bela.

Concorde-se, ou não - não está aqui em causa -, a caça é uma atividade legislada devidamente em Portugal. Está sujeita a regras, cuja quebra resulta em sanções. Como tudo na vida, aliás. E já estão abertos inquéritos para perceber o que se passou naquela localidade da Azambuja. Independentemente disso, é difícil ficar indiferente à matança indiscriminada de um número absurdo de animais. As mortes não têm que ser apuradas, porque as fotografias provam que aconteceram. Provam bem. E causam um nó na garganta. Como se já não bastassem, para isso, as notícias que todos os dias nos entraram, e entram, pelos olhos neste 2020.

É que continua gente a morrer, todos os dias, em acidentes, como aconteceu esta terça-feira, na Serra da Estrela. E continuamos a contar óbitos provocados pela covid-19. Enquanto isso, há quem sorria para uma fotografia ao lado de 540 cadáveres. De animais, é certo. Mas cadáveres, ainda assim. E o que nos devia fazer sorrir por estes dias era saber que estamos na semana do Natal e que vamos poder (nem todos, infelizmente, é certo) dar amor aos nossos familiares e amigos (mesmo que em alguns casos à distância). Recebê-lo, também. O Natal ainda é (ou devia ser) uma época de esperança e de harmonia, mesmo que 2020 nos esteja a dificultar o trabalho. E a morte não é compatível com um sorriso. Nem com a paz, ansiada por todos, sem exceção.

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