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"Medo do vírus, eu?"

"Medo do vírus, eu? Estive na guerra e não tive medo, ia lá agora ter medo do vírus!" Não é o "João sem medo". Na verdade, é António. E ali está o homem na casa dos setentas sentado no passeio à sombra de uma árvore, na Folgosa do Douro, Armamar.

Maio tem estado atiçado, como que a pedir meças aos meses donos do verão, quantas vezes uns frustrados, e às quatro da tarde, à falta de sítio aberto para beber um fino à beira da estrada, mata-se o tempo de seca à conversa. E já foi uma sorte ter por ali, precisamente para conversar, o homem que costuma pedir moedas à porta do DOC. De outra forma nem o António estaria, nem haveria, mais que certo, de ter calhado a ocasião para lhe perguntar "E então, não tem medo do vírus?".

António, cara descoberta, não terá querido dar parte de fraco perante o vírus em questão, o novo corona, o SARS-CoV-2, a que muitos continuam a tratar por "o covid", tipo "tu-cá-tu-lá", e ele, alheio à nossa grandeza, farta-se de nos dar que fazer. E vai continuar. Sobretudo enquanto se pensar que o que é mau (quantas vezes o que é bom também) só acontece aos outros. E são tantos os que pensam assim!

No Carvalhal, em Abrantes, "terão sido quebradas as boas práticas de distanciamento social" e, por isso, 15 pessoas do lar de idosos testaram positivo à doença covid-19. A explicação é de Maria dos Anjos Esperança, delegada de Saúde Pública do Agrupamento de Centro de Saúde do Médio Tejo. As autoridades estão agora a tentar descobrir o que se passou, mas já admitem que o contágio "poderá ter tido origem durante um almoço convívio numa matança" que ali sucedeu há cerca de duas semanas, "ou num funeral que ocorreu na aldeia com pessoas que vieram de Lisboa, antes dessa matança".

Tivesse sabido antes, talvez tivesse perguntado ao senhor António da Folgosa se tinha medo de cobras. Para quem viu matar e morrer na guerra colonial talvez o bicho rastejante fosse preocupação de somenos, tal como o vírus o é. Mas não o foi para a mulher de 80 anos, em Rebordosa, Paredes, que apercebendo-se de uma cobra rateira atrás de um móvel chamou a GNR que a "desconfinou". Viva, sublinhe-se. Metro e meio de cobra, acrescente-se!

E por falar em desconfinar, à medida que a "nova" normalidade se instala regressam os casos da "velha". Um homem de 69 anos morreu afogado esta terça-feira de manhã na Prainha, em Alvor, Algarve. Um jovem de 25 anos que o tentou resgatar continua desaparecido no mar.

Em Valpaços, o despiste de uma viatura ligeira de mercadorias resultou num morto (77 anos) e num ferido ligeiro (65 anos). Uma mulher ficou ferida com gravidade após uma queda, esta terça-feira, nas chamadas Cascatas do Tahiti, em Terras de Bouro.

Em estado grave ficou igualmente um homem com 61 anos após cair a um poço com cerca de cinco metros de profundidade, esta terça-feira à tarde, em Lavradas, Ponte da Barca. Também foi de cerca de cinco metros a queda para uma ravina do camião do lixo de uma empresa que trabalha para a Câmara de Vizela. Os dois ocupantes, de 31 e 36 anos, saíram com ferimentos ligeiros.

Para ver que não há só desgraças, apesar de hoje ter havido muitas, o melhor é passar os olhos pelo restante noticiário do JN Online, aqui mesmo.

Continue a desconfinar, mas com cautela. Nem todos são destemidos como o António. E ainda bem!

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