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Não apaguem a luz

Sem menosprezar as graves dificuldades que sofrem artistas, técnicos e todos os envolvidos na produção de espetáculos artísticos, no funcionamento de museus e galerias, ou na criação e distribuição de obras literárias, sentem-se pequenos sinais de que a Cultura resiste (e resistirá) ao invasor vírico e à clássica inação pública.

1. Há bandas de nicho que, por força do esvaziamento dos grandes nomes dos cartazes, estão a ter a primeira oportunidade para tocar em palcos maiores.

2. As maiores exibidoras de cinema nacionais, na senda do que fizeram os espaços mais pequenos, como o cinema Trindade, no Porto, ou o Nimas, em Lisboa, reabriram, finalmente, três meses depois do início do estado de emergência pandémica. Não existem ainda estreias de cinema popular, mas há cinema independente, e nacional, que vai ser exibido nas cadeias que operam nos centros comerciais.

3. O filme "A metamorfose dos pássaros", da realizadora portuguesa Catarina Vasconcelos, foi distinguido com o Prémio Especial do Júri do Festival de Cinema de Taipé, em Taiwan. O produtor Luís Urbano foi convidado a integrar a Academia de Cinema de Hollywood. E um filme de Afonso e Bernardo Rapazote estão na competição de películas escolares em Cannes.

5. Esta quinta-feira soubemos que até o AmadoraBD vai realizar-se, mesmo que não seja nos moldes que habitualmente levam 30 mil pessoas ao certame. E que em Vilar de Mouros está previsto um drive-in no recinto do festival, para ouvir concertos, DJ's e comédia.

Estas e outras notícias são pálidos exemplos de uma cultura que se desejaria bem mais saudável e que, em todos os anos anteriores, provavelmente não seriam mais do que notas de rodapé dos acontecimentos que marcam um início de verão: estrelas internacionais, festivais de música, grandes estreias no cinema, fortes apostas editoriais, inaugurações mediáticas.

Mas neste ano de grandes bizarrias, assinalemos as coisas que nos parecem pouco (e são) e façamos força para exigir a quem tem o dever de ajudar muito (e tem).

Para que se mantenha acesa esta pequena luz, usando Jorge de Sena, que "Não aquece também os que de frio se juntam. / Não ilumina também os rostos que se curvam. / Apenas brilha bruxuleia ondeia / indefectível próxima dourada."

A situação assim é dramática e reconheço que é "wishful thinking", mas prefiro acreditar que começa a haver alguma esperança, que talvez a luz não se apague de vez., se assim o quiserem os iluminados do Estado, dos municípios, das grandes empresas, das Fundações e todos os outros que podem ajudar os artistas a ajudarem-nos a todos.

Não há nada pior do que um sopro que deixa tudo às escuras. Ou há: deixar que o pavio se acabe, sozinho.

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