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Não haverá milagre da multiplicação das vacinas

Não haverá milagre da multiplicação das vacinas

A notícia de que o plano preliminar da estratégia de vacinação contra a covid-19 exclui os idosos com mais de 75 anos sem doenças graves das primeiras prioridades caiu hoje que nem uma bomba. Antes mesmo de ser oficialmente conhecido, o esboço motivou críticas de presidente da República e primeiro-ministro. Terão elas sido extemporâneas?

A pandemia desgasta-nos a todos e, ao ouvir as iniciais "DGS", muitos já revirarão os olhos. No entanto, ao classificar o esboço como "tonto" - em jeito de recado, bem ao seu estilo, para que a hipótese em causa caia mesmo por terra -, Marcelo Rebelo de Sousa cria uma crispação desnecessária, ainda para mais vinda de alguém que, em tempos, se gabou de fazer justamente o contrário.

Já o primeiro-ministro escreveu, no Twitter, que "as vidas não têm prazo de validade". Louva-se o humanismo, mas a verdade é que pouca gente - desejavelmente ninguém - terá opinião contrária. A frase surge, portanto, como uma constatação óbvia, inegável na teoria mas que levanta algumas interrogações práticas.

Desde logo porque Portugal tem prevista a compra de 16 milhões de doses da desejada vacina contra a covid-19, sendo que o medicamento deverá ter de ser administrado por duas vezes a cada pessoa. Não é preciso recorrer a matemática avançada: num país de 10 milhões de habitantes, no máximo 8 milhões poderão ser vacinados - e isto ao longo do tempo. Alguém terá mesmo de ficar de fora: não deverá haver tão cedo vacina para todos.

Tendo em conta que o número de vacinas é finito, que é inferior ao número da população e que há vários setores da sociedade que têm uma urgência inquestionável na vacinação (como os profissionais de saúde ou os idosos com doenças severas), salta à vista um problema logístico.

É tranquilizador saber que o primeiro impulso dos cidadãos Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa é recusar que, no fim de contas, alguém tenha mesmo de ficar para trás, ainda que apenas numa fase inicial. Mas, enquanto políticos, tanto um como o outro deveriam saber - e decerto o saberão - que, por vezes, a dureza da realidade se sobrepõe a cenários ideais.

Dizer a pessoas com 75 anos ou mais que terão de aguardar até serem vacinadas é, sem dúvida, uma decisão tão dura quanto indesejável. Mas, uma vez que não haverá nem um milagre da multiplicação das vacinas nem forma de fazer com que 8 milhões de portugueses sejam todos vacinados num dia, sobra a curiosidade para saber se a realidade não obrigará, em breve, Marcelo e Costa a fazerem marcha-atrás no caráter taxativo das suas declarações de hoje.

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Resta esperar que a prometida estratégia de vacinação seja célere para que Portugal não fique para trás neste processo, visto que vários outros países já estão bem mais adiantados.

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