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Nesta pandemia, velhos não são os trapos. Velhos são os nossos.

Nesta pandemia, velhos não são os trapos. Velhos são os nossos.

As mortes em lares de idosos, devido à Covid-19, continuam a registar-se. Todos os dias, praticamente sem exeção. A camada mais vulnerável da nossa sociedade é aquela que, como já se esperava, está também a ser a mais fustigada por este fantasma, um tal de novo coronavírus, que nos assombra a todos. Sem exceção, uma vez mais. É importante olharmos para os nossos velhos. Velhos não são os trapos. São nossos avós, pais, tios, amigos. É imperativo, mais do que nunca, protegê-los. E só os protegemos a eles protegendo-nos a nós.

Marcelo Rebelo de Sousa afirmou, esta terça-feira, que se impõe manter as medidas de contenção no país. A decisão sobre se o estado de emergência vai ser renovado só se saberá amanhã. Mas já todos os portugueses perceberam que o mais provável é que o mesmo se estenda. Afinal, começamos a acreditar que quando nos disseram que isto estava só no início, não estavam a ser alarmistas. Estavam a ser realistas.

Infelizmente, estamos longe de ver a luz ao fundo deste túnel chamado Covid-19. Prova disso é que, nos lares de idosos, em vários pontos do país, as mortes continuam a somar-se e o número de infetados não para de subir. Só a título de exemplo, o Lar Mãe de Jesus, em Matosinhos, tem um terço dos utentes infetados. No Geriabranca, em Albergaria-a-Velha, já morreu o quarto utente diagnosticado com o novo coronavírus. Em Ílhavo, soube-se hoje que a primeira morte no concelho é a de uma idosa que vivia no Lar de S.José. Os nossos idosos, aqueles que institucionalizámos, muitos de nós, para os proteger no fim das suas vidas, estão a morrer. Parece que o vírus se infiltrou nas instituições, a maior parte delas com medidas de contingência apertadas há mais de duas semanas, para não sair sem ceifar vidas. E se todos os cuidados foram poucos, é sinal de que não estamos preparados para que os cuidados deixem de ser tantos.

Desde o início desta pandemia, o meu pensamento tem estado com a minha avó. Vive sozinha, há algum tempo que já não conseguia sair de casa e necessita, diariamente, de apoio para algumas tarefas essenciais. Só os filhos lá têm ido, com todos os cuidados exigidos. Ela só pode apanhar o vírus se alguém lho levar a casa. É um facto inquestionável. Mas como é que se impede que alguém lhe leve algo invisível? Com todas as medidas de proteção que têm sido anunciadas, é a resposta mais pronta. Mas chegarão? Se faltam máscaras, luvas, álcool desinfetante e outros materiais imprescindíveis aos profissionais de saúde, o que dizer da população em geral?

Vamos tentando viver a realidade, à qual é impossível chamar normalidade, dos dias de hoje. Entre números de infetados duplicados, diretrizes díspares de vários organismos e uma amálgama de informação que nos tolda a visão. Já percebemos que, apesar de os idosos e os doentes serem a camada mais vulnerável da pandemia, o vírus não escolhe idades, raças ou credos. Há seis crianças no Hospital D.Estefânia, em Lisboa, que inspiram cuidados maiores. Há gente infetada de todas as idades, por todo o mundo. Tento dizer a mim própria, nos muitos momentos em que o desespero me trai, que a calma é obrigatória quando estamos perante uma situação que não conseguimos controlar. Calma e prevenção, voltamos ao mesmo. Só se nos protegermos é que protegemos os outros. Os nossos. Tentemos, então.

Readaptemo-nos. Tenho-o feito. A tecnologia, que tantas vezes criticámos, tem sido aliada de todos. Eu utilizo-a para matar saudades de amigos e dos meus. Para matar saudades até da minha avó. Como eu, muitos. No Hospital Padre Américo, em Penafiel, os enfermeiros criaram um serviço para que os doentes internados matem saudades da família por videochamada e vão mantê-lo depois da pandemia. Porque aprenderemos todos alguma coisa com esta pandemia. De uma forma ou de outra, seremos diferentes depois dela. E pode ser que aprendamos, finalmente, que o ato de proteger os outros é uma peça basilar da sociedade. Proteger os nossos e proteger todos.

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