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O altruísmo que nasce com uma criança na fila da sopa

O altruísmo que nasce com uma criança na fila da sopa

À medida que se aprofundam as consequências económicas de um mês e meio de confinamento quase total entre março e abril, multiplicam-se as histórias de quem não tem, sequer, para comer. No entanto, os episódios mais dramáticos também são os que dão origem a movimentos sociais mais genuínos e abnegados como o da Hope, a associação que nasceu com a criança na fila da sopa.

A história contada pela jornalista Ana Sofia Rocha na edição de hoje do JN fala da associação do Porto que Maria Coelho ajudou a fundar depois de ter visto, chocada, uma criança na fila da sopa. Desde então que os voluntários da Hope angariam comida e roupa para dar a quem mais precisa.

Os exemplos das ações solidárias que pululam por todo o país estendem-se aos docentes do Colégio Perpétuo Socorro, também no Porto, que cederam parte dos salários para ajudar a pagar as propinas dos alunos necessitados, como conta a mesma edição do JN. Ou, se quisermos, as ações solidárias estão em todos nós que enfrentamos o desconforto de usar máscara para protegermos o próximo - a máscara, recorde-se, serve mais para protegermos os outros do que a nós próprios, mas se ninguém prescindir do seu uso, todos ficamos protegidos.

A criança da fila da sopa é mais do que o nascimento da Hope. É a metáfora da forma como os portugueses podem olhar para a cruel situação social que vivemos e adotar comportamentos tão simples, mas tão altruístas, como pôr uma máscara na boca. No limite, estaremos a impedir segundas e terceiras vagas, permitindo que a economia retome e possa tirar cada vez mais crianças da fila da sopa.

Com o "desconfinamento" em curso, ao Estado português e à Europa cabem-lhe papéis determinantes. Sobre isto também fala o ministro de Estado, do núcleo duro do Governo e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, na entrevista publicada hoje pelo JN onde é garantido que "a austeridade não é necessária para superar a atual crise".

As duas páginas em que Augusto Santos Silva fala mais do futuro que do passado têm, para além da promessa de investimento em detrimento da austeridade, outra frase que vai de encontro ao tema dos parágrafos anteriores: "Vamos ficar mais pobres, mas não vamos ficar incapacitados. A nossa retoma pode ser muito mais rápida, desde que tomemos as medidas indispensáveis para que nenhum de nós fique sozinho na berma da estrada".