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O amor é um labirinto sem saída. Angel Olsen também.

O amor é um labirinto sem saída. Angel Olsen também.

Sabemos que alguém vai fazer parte da nossa vida para sempre quando nos ensina alguma coisa que não vamos saber esquecer. Pode ser só uma palavra. Unfucktheworld. Ou o mundo inteiro dentro de uma canção. "I have to save my life."

Era 2014 e "Unfucktheworld" era o tema que abria com estrondo o segundo álbum da compositora norte-americana Angel Olsen e a segunda parte da vida de quem o escrevia. E porventura, também, de quem o ouvia. Na vida, a segunda parte de alguma coisa é quase sempre uma tentativa de sobrevivência depois de um desastre. E um desastre é sempre a incontinência inesperada de um sonho. Que uma canção o diga no tempo certo, com a temperatura certa, é jackpot salvífico de que só a arte é capaz.

"Burn your fire for no witness" é um dos melhores nomes de batismo para um álbum. E um dos melhores epitáfios para a morte de um capítulo da vida. E esse álbum, aclamadíssimo pela crítica, é um dos melhores manuais de autocomiseração e, ao mesmo tempo, de elevação de um plano de libertação. Parece contraditório. E ainda bem. A vida, para poder ter graça, precisa de contradição e de bizarria. Em onze canções, aquela jovem cantora do Missouri explicava, a partir da sua imberbe mas espessa e escura experiência, o que sente quem fica de repente sozinho e tem de aprender a reinventar-se por conta própria. Para tudo há uma primeira vez. Também para saber o que é estar a mais no coração de alguém.

Portugal raras vezes resiste a uma Rainha do Drama. Angel Olsen, que se transformou numa compositora de culto há já quase dez anos (sim, passou a correr, e passou por cá várias vezes), tem sido ombro, colo e terapia para solitários e para sonhadores que, como ela, andam em busca de alguma coisa que ainda não sabem muito bem onde está. "Love is a maze with no way out." Pessoas com corações partidos, trocados, traídos, perdidos, pessoas que tiveram de aprender a esquecer à força, a deixar ir, a ficar para trás ou na beira do prato, pessoas que não aprenderam a não cair duas vezes da mesma maneira no mesmo lugar, pessoas que já sentiram que não tinham mais lágrimas para chorar e que já acordaram sem saber se haveria outro dia depois desse, todas essas pessoas, em algum momento, encontraram ali na poesia de Olsen um consolo, uma empatia, uma sintonia. Talvez uma esperança. Palavras que embriagam como vinho, diria Rilke.

Claro que bem pode falar-se da voz dela, que uiva e grita tanto quanto murmura e sussurra, da amplitude das cordas vocais e de como tudo nesse brado pode mudar em três labirínticos minutos. E da viola e do piano e da orquestração e do bando de gente que trouxe para este trabalho. Mas o que realmente nos atira ao chão é o que ela vai dizendo à medida que vai trocando a obsessão pela eternidade pela doce descoberta do efémero. "I'm not looking for the answer or anything that lasts. I just want to see some beauty."

E é por isto tudo que Angel Olsen é extremamente cansativa e claustrofóbica na mesma exata medida em que é viciante e irresistível. Em certo sentido, ela lembra Anthony (and the Johnsons), colosso de comoção como tempestade que passou em Portugal há uns anos (quem nunca chorou com I'm a Bird Now" ou "Spiralling" tem uma rodilha em vez de um coração no peito). Gostávamos dele porque sofria tanto como um animal a arder no último sopro de vida. Depois curou-se, fez um disco sobre o ambiente e o aquecimento global, ainda a Greta Thunberg mal era nascida, aquele arrepio que nos quebrava os ossos passou e ele desapareceu. Pelo menos, por enquanto.

Aparentemente, Angel Olsen também está a curar-se. Ou a crescer. "All Mirrors" continua a ser sobre o amor. Mas o que antes era dor e tristeza e abismo, é agora uma espécie de reação, de fúria ao fundo de um túnel que afinal tem luz. Há uma frase do espanhol Javier Marias que a rapariga que se mudou para Chicago aos 18 anos poderia ter escrito neste quarto álbum lançado no outono: "Que sentido faz que cada um passe pelos mesmos desgostos e descobertas mais ou menos eternamente?" O disco todo é sobre isso. Para o bem e para o mal, acabaram-se-lhe as certezas (ou o espanto) e tudo nela é agora uma nuvem de dúvidas. Dúvidas não são incertezas nem fatalismo, são possibilidades de caminho e, mais do que isso, vontade de o trilhar. "I like the life i lead without you."

Os espelhos que Olsen tenta agora enfrentar poderiam traduzir-se por caleidoscópio. E o caleidoscópio vale tanto para o disco como para ela própria, que se reinventa a cada trabalho. A cantora folk já era. Quem regressa a Portugal, na próxima semana, é um híbrido de indie e pop melancólico, desabrigado e meio transcendente.

É quase injusto dizer isto tudo, para anunciar dois concertos, que na verdade são três, e que estão há muito esgotados. Os concertos terão lugar na próxima quinta-feira, dia 23 de Janeiro, no Capitólio, em Lisboa, pela ZDB (onde Olsen esteve em residência artística em 2016), e um dia depois, na sexta-feira, no Hard Club, no Porto, pela Lovers & Lollypops. E talvez um dia antes de dia 23, também em Lisboa, dia 22, quarta-feira, dia em que ela completa 33 anos. Na verdade, tudo isto é um apelo para quem ainda não percebeu o que aí vem: procuram-se, compram-se, pedem-se, imploram-se bilhetes a quem por qualquer razão não puder usufruir dos bilhetes que a tempo conseguiu. Se não houver alternativa, resta-nos esperar por 10 julho, altura em que Angel Olsen regressará a Portugal, para atuar nos NOS Alive.

Chromatics no Primavera Sound

Surpreendentemente, no mesmo mês de outubro em que o caleidoscópio mágico de Angel Olsen via a luz do dia, os tumultuosos, abstractos e açucarados Chromatics lançavam o seu primeiro álbum em sete (loooongos) anos. "Closer to Gray", anunciado com apenas um dia de antecedência, teve sabor agridoce: trata-se do sétimo álbum da banda, mas não do esperadíssimo sexto disco, que ainda não foi editado. Esse será - quando for - o mítico "Dear Tommy", que está a ser adiado há seis anos (sim, seis), e que se espera que venha a ser o magnus opus da banda de "dark disco" de Johnny Jewel, com nada menos do que 21 temas (!).

Até lá, podemos consolar-nos com a voz incomumente restrita de Ruth Radelet e com este "Closer to Gray", registo muito abaixo do magnífico "Kill for love" (2012), que conta um conto confuso de amantes de coração partido e da sua chegada ao reino espiritual. E voltar a vê-los no Primavera Sound de Barcelona e, se a vida for justa, também no Primavera Sound do Porto.

Antes disso tudo, temos, já este sábado, às 22 horas, a "Aurora" dos Sensible Soccers na Casa da Música, no Porto.

88 anos de Teatro Rivoli...

Só é pena porque este sábado, quase à mesma hora, temos o espetáculo "ASH", de Aurélien Bory & Shantala Shivalingappa , antiga bailarina de Pina Bausch - e a prova de como um encontro ocasional num corredor pode mudar a nossa vida para sempre. Descrito como uma "ode visual e coreográfica", este momento que funde o teatro com a dança, e a Índia com a França, será o ponto alto do aniversário do Rivoli. Já a partir de hoje, e até domingo, há 96 horas para celebrar os 88 anos de Teatro Municipal do Porto e nenhum minuto deveria ser desperdiçado a não exaltar um equipamento que já nos ensinou tanto e já nos deu tanto.

A programação está toda aqui, mas fica a dica amiga: quem perdeu o "Marengo" de Ana Isabel Castro na última edição do Dias da Dança (DDD), poderá resgatar a coreografia este fim de semana. Ainda por cima, todos os espectáculos são de acesso livre.

... e 50 anos sem Paul Celan

O ano em que se assinala meio século sem Paul Celan, que morreu afogado no rio Sena a 19 de abril de 1970, é um belo pretexto para voltar à obra do poeta romeno, que sobreviveu ao Holocausto mas não resistiu a suicidar-se aos 49 anos.

"Não te escrevas

entre os mundos

ergue-te contra

a variedade de sentidos,

confia no rasto das lágrimas

e aprende a viver."

A poesia de Celan dá uma goleada na poesia dos Beatles. Em todo o caso, guarde esta data: abril. É o mês em que Yoko Ono vai estar no Porto, ela própria, aos 87 anos, para inaugurar uma exposição que pretende ser retrospectiva. Esqueça tudo o que acha que sabe e aprenda tudo o que não sabe. Abril, em Serralves, no Porto, será uma bela altura para apagar do nosso imaginário o suposto monstro que destruiu uma banda e deixar florescer a artista plástica pioneira e vanguardista que inspirou e influenciou muitos mais artistas do que imagina.

Comece o fim de semana mais cedo, já hoje, nas sempre imperdíveis Quintas de Leitura, no Campo Alegre.

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