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O poder e a arte

O JN publicou esta semana dois excelentes trabalhos que refletem sobre a Cultura ou sobre a necessidade de a tornar ubíqua, bem impregnada nos hábitos de melhor pensar e viver. Uma necessidade que é individual e coletiva, porque a arte deve servir a inquietação e emoção pessoais, mas também, e em simultâneo, convocar a comunidade.

Os festivais de verão são uma experiência artística que preenche bem os dois requisitos, mesmo que estejam construídos em cima de uma forma popular de música. Este ano, as promotoras estão a apostar como nunca apostaram: 2020 será ano de recorde nos orçamentos dos principais festivais, um investimento que está bem espelhado nos cartazes já anunciados.

Os festivais de música, estes festivais de música, são iniciativas privadas, que vivem essencialmente do risco dos seus organizadores e dos patrocinadores que sabiamente souberam atrair, mesmo que tenham alguns apoios públicos. Concentram anualmente centenas de milhares de pessoas para uma celebração cultural que é parte integrante do tecido social português. E com uma vantagem: conseguem levar públicos para fora dos grandes centros urbanos, que concentram a maioria da atividade cultural financiada pelo Estado.

Chegamos assim ao outro trabalho que o JN lançou e que deu conta de uma discussão importante. Nas formas de arte menos populares, mais difíceis de desenvolver e promover, o papel do Estado central é fundamental. Mas em Portugal, há ainda outra camada essencial à criação de uma cultura livre e plural em todo o território: o investimento dos municípios. Os privados dificilmente têm condições de ter retorno de investimento e o Estado central está formatado para apoiar os agentes estabelecidos nas grandes cidades - leia-se Porto e Lisboa

Acontece, porém, que a dependência das estruturas locais em relação ao poder municipal está permanentemente a ser testada. A arte não pode viver sem o poder; o poder não pode viver sem arte; a arte tem de questionar o poder; o poder tem medo de ser questionado pela arte que precisa de apoiar.

É uma dificuldade tanto maior quanto maior for a proximidade entre as duas entidades, arte e poder. E é por isso que a conversa sobre a relação dos municípios com a cultura é um debate interessante e que importa manter, para que esta fricção seja monitorizada em permanência.

De resto, não faltam oportunidades para aproveitar bem estes dias. Continua o Correntes D'Escritas, na Póvoa de Varzim, que entregou o seu prémio a Pepetela. Também pode ver "Os miseráveis", filme francês nomeado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, que aborda a tensão social e racial nos subúrbios de Paris. E porque não uma celebração de Carnaval diferente, na Casa da Música, com um concerto da Sinfónica este domingo?

Bom fim de semana!

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