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O terrível Putin

Sabe-se desde Clausewitz que a guerra "é o reino da incerteza; três quartos dos fatores em que a ação de guerra é baseada estão envolvidos numa névoa de maior ou menor incerteza". A "névoa da guerra" - o "fog of war" - serviu de mote e título ao imperdível documentário de Errol Morris sobre Robert S. McNamara, um ilustre desconhecido que a História não trouxe para as primeiras páginas, mas que foi essencial, como secretário da Defesa das administrações de Kennedy e Johnson, no início e desenvolvimento da guerra norte-americana no Vietname, nos anos 60.

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E o que que se conclui depois de ver "Fog of War"? Que arrepia o poder de um só homem, mesmo de um que está longe dos holofotes. E que mesmo a frieza das grandes decisões, as que escolhem entre a vida e a morte dos outros, está trágica e intimamente ligada à vaidade.

Vejamos, é bem possível que Vladimir Putin, que cerca das 3 horas da manhã desta quinta-feira, anunciou ao Mundo que iria iniciar uma operação militar (que sempre negou) em território ucraniano, se sinta neste momento exatamente como Eisenstein mostrou a força de "Ivan, o Terrível" (1944).

Mas o discurso (gravado há vários dias) do presidente russo, que aparentemente quer recuperar uma glória czarista de que poucos terão saudades, para além de ter apanhado de surpresa uma reunião surreal do Conselho de Segurança em que António Guterres fazia um derradeiro apelo humanista, transporta-o diretamente para a primeira linha de uma página triste da História mundial.

É difícil compreender Putin, que aliás ameaçou todos os que pretendam interferir com consequências sem precedentes (!), mas aí está a guerra: tanques da Rússia atravessaram a fronteira da Crimeia. Em Kiev começa a instalar-se o pânico e a confusão, como aliás dá bem nota disso o treinador português Paulo Fonseca, que reside na capital ucraniana. Há corridas aos supermercados e aos bancos.

Trata-se de um ataque não provocado e que só faz sentido para as especialistas em propaganda do regime, que se dizem libertadores. Os russos afirmam que querem suportar os separatistas de Donetsk e Lugansk, na região do Dunbass, mas há ataques em várias zonas da Ucrânia. Garantem que se trata de uma ofensiva puramente militar, mas já há registo de dezenas de mortes (um número que vai certamente evoluir rapidamente).

Os EUA, a NATO, a União Europeia, o Reino Unido, todos unidos e em uníssono, mostram-se chocados com o avanço militar russo em território do vizinho, um movimento que, segundo o caracteriza o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, destruiu a paz na Europa, e que, apelida a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, é "um ataque bárbaro", realizado com recurso a "argumentos cínicos". Em Portugal, António Costa sublinhou que as forças militares nacionais estão disponíveis para "missões de dissuasão em particular junto dos países da Aliança Atlântica com fronteira com a Ucrânia.

A reação da China foi, apesar disso, bastante mais tímida: os chineses dizem que compreendem as preocupações russas, uma posição que deixa em aberto uma preocupante colaboração entre os dois países.

A guerra na Ucrânia começou há dez horas e a neblina sobre os verdadeiros motivos e as reais consequências ainda está densa. Esperam-se reações ainda mais enérgicas do Ocidente; aguardam-se que a tragédia aumente no terreno; teme-se que os líderes das nações livres não saibam como travar Vladimir Putin.

Vamos continuar a acompanhar a torrente de informação que está a chegar às redações e a selecionar e a produzir tudo o que for mais relevante. Leia, ouça e veja tudo no nosso "live blog" e em www.jn.pt, para seguir este assunto e outros que também vão marcando a atualidade.

Estaline financiou a rodagem "Ivan, o Terrível" e gostou da película. Mas detestou a sequela - Eisenstein foi menos discreto na crítica ao brutal regime - e baniu a obra. "O terrível Putin" é o título do filme que começou hoje. Esperemos que o ditador também venha a odiar a segunda parte deste drama.

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