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Os 20s desta vida

Queres ter um bom emprego, com bom salário? Escolhe bem o curso que vais tirar. Se tiveres nota para lá chegar. Este ano, metade dos candidatos ao ensino superior entrou no curso desejado e a esmagadora maioria (90%) encontrou um lugar numa universidade ou politécnico. Mas isso não significa que estejam todos em igualdade de circunstâncias. Os cursos e as instituições não são todas iguais, não dão acesso ao mesmo tipo de trabalho, com remunerações equivalentes.

O JN conta-lhe aqui a história de dois jovens que provam ser possível manter amigos e fazer desporto, e estudar em escolas que não as de elite, e ter notas altas o suficiente para entrar em qualquer curso do país - incluindo aquele que mais gostariam de frequentar. Mas, tal como os cursos, os alunos também não são todos iguais.

Nem todos conseguem transformar em nota 20 o seu empenho e dedicação, ou até a sua vocação. Para se ser médico, matemático ou engenheiro aeroespacial é (ou deveria ser) necessário mais do que excelência académica. Mas as notas do secundário e dos exames nacionais continuam a ser o único critério de admissão ao ensino superior - motivando a competição plasmada nos rankings anuais e em escolas que não querem ter nas salas de aula alunos medianos.

Mudar os critérios de entrada, dando maior autonomia às universidades para definir outros, ajustados à sua realidade, é um daqueles temas submersos, de que os jornais falam de vez em quando, mas sobre os quais ninguém tem interesse em promover um debate sério. Manter um único critério de acesso - a nota - é uma forma de afunilar o acesso à formação aos poucos alunos capazes de lá chegar. E esses alunos, por regra, proveem de famílias com condições socioeconómicas acima da média, como mostrou um estudo da Fundação Belmiro de Azevedo.

Manter numerus clausus apertados é o verso desta moeda. Se são os jovens de famílias com mais recursos culturais e financeiros quem, por norma, consegue as melhores notas, o facto de haver pouquíssimas vagas nos cursos mais procurados garante que só o topo dos topos consegue lá chegar.

É preciso chegar ao curso com a oitava nota de entrada mais alta para encontrar mais do que uma centena de vagas. Os 38 lugares disponíveis em Matemática Aplicada e Computação, no Técnico, exigem um mínimo de 183,8 valores. E Matemática Aplicada à Economia e à Gestão, do ISEG, teve 44 lugares, para notas a partir de 184 valores.

Como diz Alberto Amaral, presidente da agência de acreditação do ensino superior, poucas vagas criam poucos diplomados que, pela simples lei da oferta e da procura, conseguem melhores condições de trabalho. A quem não entra nestes "cursos elitistas", como lhe chama, restam as segundas e terceiras escolhas, outros cursos, outras instituições de ensino. Que, ainda assim, são uma mais-valia.

É certo que longe vai o tempo em que o simples facto de ter formação superior equivalia a um trabalho estável e bem pago. Mas basta olhar para os salários médios e o desemprego de quem se ficou pelo ensino obrigatório para saber que a formação superior é, e será, uma boa maneira de melhorar a vida.