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Quando a saúde "falha", o que nos resta?

Quando a saúde "falha", o que nos resta?

Há gente amontoada no hospital, à espera de camas no internamento. Uma jovem perdeu a filha, às 40 semanas de gestação, quando estava internada. Num bairro social, recentemente ladeado por um muro de quase dois metros de altura, constatou-se agora que as ambulâncias não conseguem lá entrar. Todos os dias, o de hoje incluído, há notícias relacionadas com o setor da saúde. Ou sobre a falta dela. O que nos leva à questão: quando a saúde "falha", o que nos resta?

O Hospital de Aveiro foi hoje noticia, por dois motivos, não necessariamente bons. Por um lado, porque, ontem à tarde, tinha 70 doentes na Urgência, espalhados em macas, 20 dos quais aguardavam camas para serem internados. Alguns deles, permaneciam no serviço desde sexta-feira. Por outro lado, veio hoje a público a história de uma grávida, com 40 semanas de gestação, que perdeu a filha, no sábado, quando estava internada com uma pneumonia e depois de ter recorrido à Urgência, nas últimas semanas, cerca de uma dezena de vezes. O hospital terá, certamente, explicações para estes dois casos e não me cabe a mim escrutiná-las. Em relação aos doentes amontoados na Urgência, justifica a situação com "uma afluência padrão de maior procura". No caso da morte fetal, diz que vai averiguar, internamente, o que se passou, apesar de uma primeira auditoria indicar que todos os procedimentos tomados foram corretos.

O certo é que quando a saúde falha, parece falhar tudo. Não há ninguém, quando está com dores ou quando perdeu um ente querido, que colha uma justificação, por muito plausível que a mesma aparente ser. Só que eu própria, em virtude desta profissão, já testemunhei muitos casos que causam revolta, mas em que nada podia ter sido feito de outra maneira. E em que eu só percebi isso quando ouvi as justificações, por quem de direito. Às vezes, esquecemo-nos que, do outro lado, há seres humanos, que lutam diariamente para nos proporcionar melhor qualidade de vida. Muitas vezes cometem erros, alguns até fatais, mas outras vezes não, não têm mesmo culpa das inevitabilidades da vida. Só que como é que se pede compreensão a alguém, quando a saúde "falha"? Entre aspas, porque às vezes falha mesmo, outras parece que falha, mas não falhou nada. Como discernir se houve erros - humanos, políticos, de gestão, etc. - ou não, antes de nos revoltarmos?

Depois, claro, há casos em que, aparentemente, há situações que só acontecem porque foram mal calculadas. Como é o caso da história que damos hoje na edição em papel, do muro de dois metros, construído à volta do Bairro Social da Integração, em Leiria, que não permite que uma ambulância faça uma curva de forma rápida, o que pode causar problemas a um eventual socorro. E os moradores revoltam-se, porque, mais uma vez, é a saúde, de certa forma, que está em jogo. Sempre que a saúde está em jogo, há queixas. Haja culpas associadas, ou não.

Mas também há outras queixas pelo país. Exemplo disso mesmo é o protesto levado a cabo, hoje, junto ao Ministério da Habitação, por várias famílias que estão em risco de despejo. Isto, num dia noticioso marcado, a nível local, também por dois atropelamentos no Metro, em Gaia e em Vila do Conde, e por várias ruas cortadas, em São João da Madeira, devido às cheias causadas pela precipitação forte.

Amanhã, depois, ou daqui a uns dias, haverá mais notícias sobre falta de médicos, centros de saúde encerrados, queixas de negligência médica, entre outras. Porque, quando a saúde "falha", o que é que nos resta? Eu arrisco-me a responder "nada".

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