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"Quando eles jogam baixo..."

"Quando eles jogam baixo..."

"When they go low, we go high". Podia ser só o título de um livro. É uma declaração proferida por Michelle Obama, na convenção do partido democrata, em 2016. Disse-o em defesa de Hillary Clinton contra os truques baixos de Donald Trump que, pasme-se!, pasme-se ainda hoje!, nesse ano acabaria eleito presidente dos EUA.

"Quando eles jogam baixo, nós jogamos alto", disse, na versão traduzida, a mulher daquele que foi o 44.º presidente da América, Barack Obama. Podia ser o título de um filme. Podia ser o verso de um poema. Pode ser um mantra. A frase poderia ter reaparecido na memória devido à contagem decrescente para a corrida à Casa Branca.

Soube-se esta quinta-feira que Elizabeth Warren desistiu da candidatura e que poderá apoiar Joe Biden, que assim fica mais perto de ser o candidato democrata. Percebeu-se assim que a disputa democrática está nas mãos de "dois homens, quase octogenários, profissionais da política há muitas décadas", quando poderia ter integrado um homossexual ou uma mulher de esquerda. Houvesse coragem para isso. Mas não é da falta dela que é feita a vida dos partidos? Lá, como cá, é sempre só baralhar e voltar a dar, num raio de ação que recusa furar seja o que for. Não há dois Obamas, o melhor é aprendermos a viver com isso.

Mas a frase de Michelle surge também nos territórios mais domésticos, porventura mais vezes do que gostaríamos. Surge na vida, surge no trabalho, surge na política do burgo - Lisboa discute o aeroporto; no Porto, depois do drama do Rivoli, eis o melodrama do Coliseu. Todas as razões são boas para bater em alguém. Bater é como insultar, sempre é mais fácil do que pensar.

Surge a frase de Michelle em todos os momentos em que nos confrontamos com qualquer espécie de bullying, mais ou menos descarado, mais ou menos encapotado, e sempre, em qualquer dos casos, cobarde. Contra o bullying, que nunca nos falte a poesia.

Para que serve a poesia?

"Não serve para nada", disse Manuel António Pina, que dizia escrever poesia "para ir estando mais ou menos bem com o mundo." Bastante mais nova do que Pina, sábio editor da Cultura do JN que morreu em 2012 com 68 anos, Matilde Campilho, de 38 anos, disse algo parecido: "A poesia não salva o mundo mas salva o minuto."

Nos próximos dias, chegará até nós, numa edição da Tinta da China, um conjunto de poemas da argentina Alejandra Pizarnik, seleccionados por Ana Becciú e Patricio Ferrari e traduzidos por Fernando Pinto do Amaral. Era praticamente impossível, até agora, ler Pizarnik em português. E continua a ser tão urgente ler a poeta e ensaísta que se suicidou com apenas 36 anos a 25 de setembro de 1972, depois de não ter sido capaz de driblar a doença mental que a atormentava.

Pizarnik, escreveu Pinto do Amaral na sua página de Facebook, dando-nos dela a melhor definição possível, deu-nos "uma poesia única e inclassificável, capaz de nos queimar como o gelo ou de nos ferir com o gume mais límpido do nada - um nada que ela conhecia por dentro e que soube transformar com as suas palavras às vezes tão simples, mas por isso mesmo ainda mais terríveis."

De Pizarnik, tão a propósito:

"Esperando que un mundo sea desenterrado por el lenguaje, alguien canta el lugar en que se forma el silencio. Luego comprobará que no porque se muestre furioso existe el mar, ni tampoco el mundo. Por eso cada palabra dice lo que dice y además más y otra cosa."

Para que serve o teatro?

Em Portugal, o poema mais trágico que existe é o de António Ferreira, escrito no século XVI, para contar a história de amor de Pedro e Inês. É um texto rejeitado pela maioria, e até pela academia, porque exige tempo. Tempo para ser compreendido e tempo para que se possa apreciar a sua tremenda beleza. Não por acaso, nos últimos vinte anos foi encenado apenas duas vezes. A segunda vez tem estreia agendada para esta quinta-feira, na sala principal do Teatro Aveirense.

É uma encenação com a assinatura de Nuno Cardoso, diretor artístico do Teatro Nacional de São João, no Porto, e com a garantia de que, desta vez, ninguém ficará indiferente ao poema, que conta uma história de amor que é uma história de política; que conta a história de uma casa que é a história de um país; que conta a história de um país que é a história de cada um de nós. Que nos confronta, no século XXI, com a capacidade de sobrevivência da cobardia, da pequenez, da mesquinhez. Mas que nos confronta também, em sentido oposto, com a incapacidade de aparentemente fazer viver para sempre os sentimentos que não cabem em manuais de política. Nem de jornalismo, já agora.

Como diz Nuno Cardoso, "a incomunicabilidade é a comunicação dos dias de hoje. Uma espécie de escalagem, de guerra fria de palavras num tabuleiro digital de xadrez em que ninguém propriamente fala com ninguém, faz só um exercício de auto-complacência e se auto-compraz com aquilo que escreve. Numa época tão blasé como a nossa, tão transitória, o que me deixa perplexo nesta obra é o caráter dilacerante e avassalador do sentimento".

Como tantas vezes se ouviu na RFM, "já agora, vale a pena pensar nisto."

Tenha um bom fim de semana.

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