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Quem enganou a ministra da Cultura?

Quem enganou a ministra da Cultura?

A ministra da Cultura Graça Fonseca foi enganada. Ter-lhe-ão dito, quando a convidaram para assumir o cargo num Governo que continua a jurar a pés juntos que a Cultura é uma prioridade, que a sua popularidade seria proporcional à sua presença.

E que a sua presença (nas inaugurações, estreias e afins) dispensaria a necessidade de um pensamento minimamente estruturado sobre um sector que caminha de gatas. O novo coronavirus não provocou nada na criatividade que a ministra nunca mostrou, limitou-se a tornar pornográfica a nudez que já era evidente - nela e no sector. Cada trabalhador das artes, quase todos freelancers, está entregue à sua sorte. De tutela, nem pensamento, nem estratégia, nem política. Nada!

A maneira como os artistas e técnicos são tratados em Portugal devia cobrir-nos a todos de embaraço. À ministra e ao Governo, devia enchê-los de vergonha. Perante o desastre da perda total de rendimentos, o melhor que a tutela conseguiu descortinar foi o anúncio de um concurso (sim, um concurso), uma espécie de habilite-se-a-ter-dinheiro-para-comer-concorrendo. Só mesmo em Portugal um concurso pode rimar com linha de apoio. Não estranha, por isso, que pouco depois tenha surgido aquela ideia estapafúrdia do festival de cantigas na televisão e que felizmente uma petição travou.

A linha de apoio de um milhão de euros, anunciada quase três semanas depois de declarado o primeiro estado de emergência, já o sector estava mais do que paralisado, foi dotada com um milhão de euros, a que mais tarde se somou mais 700 mil euros. Uma linha para artistas e estruturas sem qualquer apoio financeiro. Houve 1025 candidaturas, apenas 311 foram apoiadas. Dá para chorar, não dá?

Inglaterra, que até resistiu a confinar, atirou logo com 260 milhões. Itália, o país europeu mais atingido pela pandemia, anunciou 130 milhões. A Alemanha disponibilizou 50 milhões. França, 22 milhões. E por aí fora. Comum a todos, o objectivo de não deixar desaparecer artistas e entidades artísticas, que literalmente nos salvam a vida milhares de milhões de vezes.

Pois não somos estes países, nem temos aqueles orçamentos. Mas o que aqui está em causa não é o valor concedido aos artistas e técnicos, é o valor atribuído à Cultura. Em Portugal, esse valor está assim mais ou menos ao nível da sobremesa. Se houver, óptimo; se não houver, paciência, passamos diretos para o café.

É o mesmo pensamento pequenino de quem vê as duas principais fundações do Porto, duas das principais do país - Casa da Música e Serralves -, a exibirem o manual laboral de tudo o que o mínimo da decência manda não fazer, e achar que não se tem nada que ver com isso. Usam-se as pessoas sem contrato quando é necessário, atropelam-se direitos sempre que possível e, na hora de retribuir, os conselhos de administração lavam as mãos, os directores artísticos assobiam para o lado, os representantes daqui e dali andam sabe-se lá onde, dezenas de pessoas ficam sem nada, e a Graça Fonseca não lhe ocorre outra coisa que não seja dizer que se sente "esclarecida".

Houve esta quinta-feira 17 vigílias no país, alertando para o óbvio: mecanismos de proteção para os trabalhadores das artes, apoios e não concursos. Em todas elas havia um cartaz com a mesma frase - "E se tivéssemos ficado sem cultura?" -, mas com o tempo verbal errado. Porque talvez valha a pena colocar a questão no futuro: e se ficarmos sem cultura?

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